Começo a escrever já tendo o título
deste amontoado de palavras já definido, e isso graças a apreciável cronista
Jeanne Bilich que proporciona a todos os seus "sagazes leitores"
doses homeopáticas de boa leitura. Em uma de suas últimas crônicas lidas por
mim, Jeanne falava do verão e suas sensações, seus refrescantes banhos de
oceano, num sábio jogo de palavras que esconde em si a linguagem metafórica.
E como um verdadeiro "adorador
do Deus Sol", que adora uma praia, uma boa caminhada à beira mar, bem como
banhos salgados, me coloquei a refletir sobre meus feitos juvenis. E num
repente me vi numa tempestade de ideias, que os norte-americanos costumam
chamar de brainstorming, e isso em pleno o verão. E além do
oceano Atlântico, no qual costumo me banhar, percebi que tenho me refrescado em
outros oceanos ainda mais existenciais.
Por um dia inteiro me retirei junto a
um grupo de recuperandos de drogas, para com eles refletir sobre nossa vocação
enquanto filhos de um Deus pessoal. Ao ouvir as partilhas de vida, as decepções
de trajeto, bem como os efeitos destruidores das drogas, me vi mergulhando num
mundo que antes não o vira de tão próximo. Quanta carência, quanta fragilidade
escondida dentro de rostos aparentemente tão carrancudos, quanta imaturidade em
enxergar a vida. Características que encontramos em qualquer humano em
desenvolvimento, mas que neles parecem estar latentes, gritantes e
perturbadoras. Desse mergulho, conclui assim como alguns pensadores já o
disseram, que o ser humano é carência, e mais ainda que nunca podemos deixar de
acreditar no potencial de transformação desse ser inacabado que é o ser humano.
Outro oceano que me deparei
explorando, foi aquele já predito por Heidegger, de que somos um "ser para
morte", ao estar com minha avó paterna no auge dos seus noventa e dois
anos, que não sabe hoje viver de outra forma, porém ao contrário do que
propunha o filósofo de viver a autenticidade da vida tendo em vista a iminência
da morte, minha adorável parece se perder no medo do inevitável. Isso me fez
pensar sobre como tenho gastado meus dias, como tenho dado sabor a minha vida.
Confesso que fiquei angustiado, não pelo medo da morte, pois a juventude nos
parece ser uma pseudo proteção a este "único mal irremediável que assola
todo vivente" como bem nos lembra o personagem Chicó no celebre filme
nacional "O Auto da Compadecida", mas minhas angústias se assentam na
aceitação de minhas limitações enquanto um ser situado.
Verão é tempo de férias, de descanso
e lazer. No entanto não há como fugir às reflexões diante da imensidão azul do
céu ensolarado, bem como do mar em sua vastidão. Logo o verão então se torna
tempo de pensar , de reflexões que possam nos auxiliar nesta grande jornada de
ida que é nossa vida. A todos os amigos praieiros desejo deliciosos banhos de
oceano.

