sexta-feira, janeiro 18, 2013

CRÔNICA: Banhos de oceano



Começo a escrever já tendo o título deste amontoado de palavras já definido, e isso graças a apreciável cronista Jeanne Bilich que proporciona a todos os seus "sagazes leitores" doses homeopáticas de boa leitura. Em uma de suas últimas crônicas lidas por mim, Jeanne falava do verão e suas sensações, seus refrescantes banhos de oceano, num sábio jogo de palavras que esconde em si a linguagem metafórica.

E como um verdadeiro "adorador do Deus Sol", que adora uma praia, uma boa caminhada à beira mar, bem como banhos salgados, me coloquei a refletir sobre meus feitos juvenis. E num repente me vi numa tempestade de ideias, que os norte-americanos costumam chamar de brainstorming, e isso em pleno o verão. E além do oceano Atlântico, no qual costumo me banhar, percebi que tenho me refrescado em outros oceanos ainda mais existenciais.

Por um dia inteiro me retirei junto a um grupo de recuperandos de drogas, para com eles refletir sobre nossa vocação enquanto filhos de um Deus pessoal. Ao ouvir as partilhas de vida, as decepções de trajeto, bem como os efeitos destruidores das drogas, me vi mergulhando num mundo que antes não o vira de tão próximo. Quanta carência, quanta fragilidade escondida dentro de rostos aparentemente tão carrancudos, quanta imaturidade em enxergar a vida. Características que encontramos em qualquer humano em desenvolvimento, mas que neles parecem estar latentes, gritantes e perturbadoras. Desse mergulho, conclui assim como alguns pensadores já o disseram, que o ser humano é carência, e mais ainda que nunca podemos deixar de acreditar no potencial de transformação desse ser inacabado que é o ser humano.

Outro oceano que me deparei explorando, foi aquele já predito por Heidegger, de que somos um "ser para morte", ao estar com minha avó paterna no auge dos seus noventa e dois anos, que não sabe hoje viver de outra forma, porém ao contrário do que propunha o filósofo de viver a autenticidade da vida tendo em vista a iminência da morte, minha adorável parece se perder no medo do inevitável. Isso me fez pensar sobre como tenho gastado meus dias, como tenho dado sabor a minha vida. Confesso que fiquei angustiado, não pelo medo da morte, pois a juventude nos parece ser uma pseudo proteção a este "único mal irremediável que assola todo vivente" como bem nos lembra o personagem Chicó no celebre filme nacional "O Auto da Compadecida", mas minhas angústias se assentam na aceitação de minhas limitações enquanto um ser situado.




Verão é tempo de férias, de descanso e lazer. No entanto não há como fugir às reflexões diante da imensidão azul do céu ensolarado, bem como do mar em sua vastidão. Logo o verão então se torna tempo de pensar , de reflexões que possam nos auxiliar nesta grande jornada de ida que é nossa vida. A todos os amigos praieiros desejo deliciosos banhos de oceano. 

Campanha da Fraternidade 2026: Tanta gente sem casa e tanta casa sem gente

  O tema da Campanha da Fraternidade 2026 é Fraternidade e Moradia, e lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1, 14). Trata-se antes de tudo do ...