sexta-feira, dezembro 23, 2022

CRÔNICA: Deus quis se misturar conosco

 


Que bela notícia saber que Deus olhou e desceu para estar para sempre entre nós. Eis o mistério da encarnação, mistério de amor infinito que se fez homem para nos ensinar que o caminho de santificação passa pela verdadeira humanização. O todo poderoso se fez todo frágil, o grandioso se fez pequeno, a complexidade do divino se manifestou na simplicidade de um recém-nascido.

O evangelista Lucas afirma que uma Boa Notícia foi anunciada para todo o povo, é uma oferta que não excluí ninguém (Lc 2, 1-14). O que seria esta Boa Notícia hoje? Boa Notícia para o doente é a cura ou o alívio de ter tratamento, Boa Notícia para os famintos é ter o que comer, Boa Notícia para os desempregados é ter trabalho digno, Boa Notícia para os injustiçados é que a justiça seja feita, etc. Mas, no fundo a maior Boa Notícia é saber que Deus toma partido dos pequenos, pobres, e frágeis. Deus se aproxima de nós fazendo-se um de nós.

Deus entra na história cheio de delicadeza, ele quis e continua querendo se misturar conosco. É disso que precisamos, nos misturar com Deus de tal forma que possamos chegar ao ponto de nos tornar uma única coisa. É nos misturando com Deus que aprenderemos as lições de humanidade, de defesa incondicional da vida, as lições de reconciliação em prol da verdadeira fraternidade. É bem misturados com Deus que se fez Boa Notícia em Jesus de Nazaré que aprenderemos a viver a coerência do Evangelho e assim nos tornaremos construtores do Reino de Deus.

Desejo a você caro(a) leitor(a) um Natal repleto da Boa Notícia de saber que Deus está entre nós, e um próximo ano repleto de esperança em construir o novo e realizar pequenas obras de amor, confiando as grandes obras ao Senhor que nunca nos falta. 



domingo, novembro 27, 2022

CRÔNICA: O chá: a avó, a bruxa, a comunidade


Passando um dia desses pelas ruas da cidade encontrei um pezinho de boldo chinês brotando numa rachadura de uma calçada, numa rua de asfalto, se exibia vitorioso demonstrando sua vitalidade em meio àquele ambiente aparentemente inóspito a sua presença. Aquela erva me despertou várias memórias afetivas. A primeira memória foi de minha avó que usava o chá de boldo para aliviar seus constantes problemas de estômago, dizia ela convencida ao tomar o chá de sabor extremamente amargo: “Boldo é o melhor remédio para o estômago”.

Me recordei ainda de quando fui visitar uma amiga, mulher muito feminina e sensível, já amadurecida pelos anos, no entanto cheia da beleza daqueles que assumem sua idade nas marcas do rosto, na cor do cabelo, na profundidade do olhar. Na casa de minha amiga tantos detalhes, tantas cores nas paredes e nos quadros, quantos bibelôs e porta-retratos cheios de memória, filtro dos sonhos, imagens de santos e da Virgem Maria, dois gatos rechonchudos, e por todo lado muitas plantas e ervas medicinais, numa composição mística e reveladora da personalidade de sua moradora. Curioso eu comecei a perguntar sobre as diversas ervas que haviam ali, e ela como mulher ligada à terra afirmou que as ervas estão em todo lugar, discretas e generosas para nos oferecer seus sabores e curas, basta educar nosso olhar e as descobriremos entre nós. As ervas que no passado curavam e ofereciam alívio a tantas doenças, mesmo suplantadas pela poderosa indústria farmacêutica que vicia e explora, insistem em brotar entre as gretas de nossas cidades que se tornaram selvas de pedra aonde nem a água da chuva consegue penetrar nas profundezas da terra. Aquela amiga “bruxa”, “curandeira”, “farmacêutica” me falou sobre o poder dos chás no cuidado com nosso corpo.

Outra memória que aquele pezinho de boldo me trouxe foi da vivência de fé de várias comunidades católicas da grande Belo Horizonte, é costume em algumas igrejas após a Missa que é o Remédio dos Remédios oferecer um chazinho quente para todos os fiéis, seja de cidreira, alfavaca, hortelão, etc; e ali o povo fica convivendo prolongando a Eucaristia com mais um momento sacramental que brota da espontaneidade e sabedoria da vida do povo de Deus. O chazinho depois da Missa é servido a todos, ninguém fica de fora, mesmo aqueles que não podem se aproximar da Eucaristia, que é o ápice de nossa fé. Revelando que os chás também podem gerar comunhão e curar corações.

Minha velha avó tinha razão em dizer que chá de boldo é bom para o estômago, mas talvez ela nunca tenha refletido que é bom também para despertar memórias. Minha velha avó, minha amiga bruxa, e a comunidade de fé descobriram o valor e o poder das ervas que estão muito além dos seus efeitos bioquímicos.   



sábado, novembro 19, 2022

CRÔNICA: Tornar-se negro

 

Para mexer com a nossa consciência iniciemos, amigo leitor (a), com alguns questionamentos: Quantos presidentes negros já tivemos? Quantos ministros negros temos no STF? Quantos governadores, senadores, deputados, prefeitos, etc, negros? Quantos pensadores negros temos no nosso País? Quem foram ou são os nossos professores negros? Quantos bispos, padres, diáconos negros temos em nossa Igreja? Aonde estão os negros e negras em nossa sociedade? Se sinceramente nos questionarmos, nestas e em outras áreas, perceberemos que num país de maioria de afrodescendentes não visualizar a população negra em alguns espaços sociais é um sintoma grave de doenças crônicas na constituição de nosso Brasil.

É inadmissível ver o aumento surreal dos índices de todo tipo de violência e agressões com motivações  racistas, são negros agredidos em escolas, em condomínios, no trabalho, são negros sendo mortos brutalmente, sendo menosprezados e tratados como potenciais criminosos simplesmente pela cor da pele. Continua tendo razão a profetiza negra de saudosa memória Elza Soares, que cantou: “A carne mais barata do mercado é a carne negra. (Só-só cego não vê) Que vai de graça pro presídio. E para debaixo do plástico. E vai de graça pro subemprego. E pros hospitais psiquiátricos. ”

Nestes episódios deploráveis de racismo no Brasil, e mundo afora, os violentos costumam nos chamar de macacos, e por detrás desta expressão está toda uma carga teórica que desconsidera o outro como gente, o coloca no patamar de animal, desumaniza e tira-lhe sua singularidade e até mesmo sua alma. Como afirma a pensadora negra Cleusa Caldeira, a quem tive a honra de conhecer e me sentir provocado por seus questionamentos, o racismo é: “ [...] discriminação fenotípica e racial de indivíduos, mas é, sobretudo, uma forma de hierarquização entre inferiores e superiores em vista da dominação”. Como é triste constatar que em tantos espaços, em tantas consciências, mesmo na consciência dos negros, está introjetada a ideologia desumanizante de inferiorização do negro e de tudo aquilo que lhe diz respeito.

Poderíamos dizer que somos todos filhos de Deus e que esta história de raças não passa de uma invenção humana, que no fundo ela não existe. Com isto, daríamos testemunho de um deus medíocre e desconectado da realidade e ao mesmo tempo cruel, que pouco se importa com os sofrimentos reais dos mais fracos e explorados. Mas, nosso Deus que se revela no rosto evangélico de Jesus Cristo e na força do Espírito Santo, nos ensina um caminho de reconciliação fraterna que passa pela prática da justiça. Se no passado existiram políticas públicas no Brasil que legitimaram a desumanização do povo negro, agora é urgente que tenhamos políticas públicas que venham fazer justiça e que efetivamente promovam o desmonte do racismo estrutural e do mito da democracia racial.

Por fim, amigo leitor (a), é preciso independentemente da cor da nossa pele tornar-se negro, expressão que dá nome ao livro da escritora, psiquiatra, negra Neuza Santos Souza. Tornar-se negro para reconhecer as belezas, os valores, a religiosidade, as potencialidades, a cosmovisão da negritude. Como negro quero diariamente tornar-me mais negro na esperança de colaborar para que também nosso Brasil possa tornar-se negro. 


domingo, outubro 23, 2022

TEXTO: A missão tem uma Igreja

Celebramos o mês missionário no Brasil com o tema “A Igreja é missão”, já nos alertava um pensador norte americano “não é que a Igreja tenha uma missão, é a missão que têm uma Igreja” (WRIGHT, p 176). O Concílio Vaticano II afirmou: “A Igreja peregrina é, por sua natureza, missionária, visto que tem a sua origem, segundo o desígnio de Deus Pai, na missão do Filho e do Espírito Santo” (AD, n.2). A Igreja existe para missão que é sempre Missio Dei (missão de Deus), e se nós somos Igreja somos todos responsáveis por tornar o nome de Jesus Cristo conhecido e amado cada vez mais.

Neste ano, somos inspirados pelo texto bíblico “Sereis minhas testemunhas” (At 1,8), escolhido pelo Papa Francisco em sua mensagem para o Dia Mundial das Missões. Detenhamo-nos a refletir sobre a mensagem do Santo Padre em três pontos do versículo bíblico que ele mesmo destaca: “Sereis minhas testemunhas”: como batizados pertencemos a uma comunidade de fé e somos enviados em missão, enviados a fazer de nossa vida um testemunho credível da nossa fé em Jesus Cristo, São Paulo VI afirmou: “O homem contemporâneo escuta com melhor boa vontade as testemunhas do que os mestres (…) ou então, se escuta os mestres, é porque eles são testemunhas” (EN, n. 41). “Até aos confins do mundo”: a missão tem o tamanho do mundo, ela é universal. “A Igreja terá sempre de ir mais longe, mais além das próprias fronteiras, para testemunhar a todos o amor de Cristo” (Papa Francisco), isto é ser “Igreja em saída missionária”, uma Igreja que não fica presa na sacristia, parada em si mesma, mas que se arrisca a ir aonde as pessoas estão vivendo os dilemas da vida, sem preconceitos, sem rigidez, como fazia Nosso Senhor que sendo o missionário do Pai ia encontrar as pessoas lá onde elas estavam. “Recebereis a força do Espírito Santo”: O Espírito Santo é o verdadeiro protagonista da missão, “Ele é a fonte divina inesgotável de novas energias e da alegria de partilhar com os outros a vida de Cristo” (Papa Francisco). É o Espírito Santo quem nos impulsiona a buscar na abertura e criatividade novas formas de anunciar a verdade perene do Evangelho – Boa Nova da Salvação.

Assim, celebremos com alegria o Dia Mundial das Missões, cuja coleta em todas as comunidades católicas se destina ao Fundo Universal com que o Papa sustenta a atividade missionária.  Esta coleta tem importância fundamental para manter as dioceses mais carentes pelo mundo à fora. Quando a Missa acaba começa a nossa Missão no meio do mundo, por isso somos enviados com as palavras da fé: “Ide em paz e que o Senhor vos acompanhe”. É na certeza de que o Senhor nos acompanha que precisamos crescer na consciência missionária de batizados, pelo batismo recebemos a missão de fermentar o mundo com o Evangelho. A alergia de ter Jesus Cristo como nosso Salvador deve transbordar em nossa vida de tal maneira que as pessoas possam olhar para nossa vida e afirmar que a nossa vida revela o rosto de Jesus Cristo vivo e presente no meio de nós.

Para refletir:

1.     Como minha vida tem sido sinal do agir de Deus no mundo? Minhas ações revelam o rosto de Jesus Cristo?

2.     Minha comunidade consegue evangelizar para além da sacristia, conseguimos chegar a quem mais precisa receber a Boa Notícia do Evangelho?

3.     Como posso contribuir para tornar minha comunidade mais missionária?

REFERÊNCIAS:

BÍBLIA. A Bíblia Tradução Ecumênica. São Paulo: Loyola, 1996.

DECRETO CONCILIAR AD GENTES. Documentos do Concílio Ecumênico Vaticano II. Paulus: São Paulo, 1997.

Mensagem de Sua Santidade Papa Francisco para o Dia Mundial das Missões de 2022. Disponível em:

<<https://www.vatican.va/content/francesco/pt/messages/missions/documents/20220106-giornata-missionaria.html>> Acesso em: 23 out. 2022.

PAULO VI, Papa. Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi. 22 ed. São Paulo: Paulinas, 2011.

WRIGHT, Christopher J. H. A missão do povo de Deus. São Paulo: Vida Nova, 2012. 1 ed.

 

quinta-feira, outubro 20, 2022

CRÔNICA: Presentes-Incensos


Há poucos dias ouvi uma expressão que me fez refletir: “A morte de um outro vivifica coisas naqueles que estão vivos, esta é a compreensão do fluxo da natureza, vida e morte”.  Talvez era justamente a chave que me faltava para escrever estas palavras como um tributo a mulher, filósofa, jornalista, advogada, professora, radialista, capixaba, bisavó, cronista e como ela mesma escreveu em um dos e-mails de nossas correspondências: “De sua mais nova amiga real e virtual” Jeanne B.

 Quando ainda se liam os jornais impressos, fui me encantando com as crônicas semanais de Jeanne B., a admiração cresceu tanto que quis fazer contato com a dona daquele olhar tão refinado e atencioso ao vislumbrar e refletir os fatos da vida. Então em março de 2012, ao ler a crônica “Um passeio melancólico”, me enchi de coragem e decidi escrever para aquela que com a genialidade de suas palavras me ajudava a expandir meus horizontes. Peguei seu e-mail no jornal e me aventurei a escrever e juro que pensei que não receberia resposta, escrevi me apresentando e pedindo dicas de como escrever crônicas, pois sempre foi um desejo meu.

Supreendentemente, depois de alguns dias, lá estava em minha caixa de entrada o tão esperado e-mail. No início logo um pedido de desculpas pela demora em responder, seguido de um agradecimento pelas palavras gentis e carinhosas que lhe escrevi, na sequência uma séria de palavras doces e empolgantes para o aprendiz de “croniquetas”. Aquele foi um primeiro contato que se repetiu no pulsar das crônicas da Mestra e dos comentários do aprendiz de “croniquetas”, sempre atenciosa e de uma educação elegante respondia a cada solicitação minha. Recebi de presente uma obra de sua autoria, com uma bela dedicatória, que guardo com muito apreço: “Zeitgeist: Espírito do Tempo”.

Curiosamente em março de 2022, mesmo mês que dez anos antes iniciávamos aquela inspiradora amizade, Jeanne B. cumpriu sua missão e o passado, o presente e o futuro na densidade de um minuto de eternidade lhe sorriu. Sua vida foi fecunda em obras e intensa nos convívios, sua morte me reanima no caminho de aprendiz de “croniquetas”. Tenho certeza de que se minha amiga pudesse ler estas palavras demonstraria gratidão, por isso recolho de meus guardados e partilho com você “caro leitor” parte de nossas correspondências: “Quando e se quiser, comunique-se. Tesouro é o convívio com os ‘construtores’ deste novíssimo século XXI. O carinho e sinceros agradecimentos desta velha jornalista pelos ‘presentes-incensos’ a mim ofertados: o seu inesperado e-mail e a bela & reflexiva ‘crônica da crônica’. Sua nova (velha...rsrs) amiga, Jeanne B”.


quinta-feira, outubro 13, 2022

CRÔNICA: A Mãe Aparecida nos ensina


Quantas manifestações de beleza e de consolo espiritual, na festa de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, em todo o nosso amado Brasil. Tive a oportunidade de participar de uma homenagem do congado a Mãe Negra do Brasil, que energia, que alegria em honra Àquela que é símbolo do cuidado de Deus para com os pobres, os negros e os mais sofridos do nosso Brasil. Durante a celebração quantos sinais de verdadeira contrição, sinais de sofrimento real de filhos e filhas que clamam por socorro da mãe.

Recordei-me vendo aqueles irmãos e irmãs de uma cena de minha infância, que creio ser compartilhada também pelo(a) caro(a) leitor(a), quando enquanto criança passávamos por alguma situação de sofrimento e que segurávamos o choro com toda força, e quando a mãe aparecia e nos perguntava o que estava acontecendo, desabávamos em um choro disparado de pedido de socorro. Ontem vi este choro disparado no rosto de vários homens e mulheres, de todas as cores, homens e mulheres brasileiros que estão sofrendo e foram confiantes depositar suas lágrimas no colo da Mãe Aparecida que acolhe cada lágrima como uma verdadeira oração.  

Eu rezava no meu íntimo suplicando que novamente a Virgem Maria aparecesse, saída das águas das angústias e sofrimentos que teimam em querer afogar nossas esperanças, quando recebi uma verdadeira iluminação. A Virgem Maria não precisa aparecer novamente para nos socorrer, somos nós que precisamos aprender com Ela a lição que nos foi dada a 305 anos atrás, uma lição de cuidado de Deus para com os mais pobres e marginalizados, uma lição de que somos uma grande família com um único Pai e uma única Mãe que desejam ver a felicidade de todos os filhos e filhas partilhando a vida e os seus dons como verdadeiros irmãos. Nossa Senhora da Conceição Aparecida nos põe em movimento, como os três pescadores que foram para luta apesar de todas as desilusões, não ficaram esperando peixe, mas foram pescar. O amparo do céu já o temos, agora é preciso aprender a lição e nos empenhar em construir soluções para os problemas reais que têm tirado o sono, o trabalho, o teto, a vida do nosso povo brasileiro.

Quando falamos de mãe falamos de algo sagrado para nós, ainda mais quando nos referimos a Nossa Senhora da Conceição Aparecida, por isso quero encerrar parafraseando os Bispos do Brasil que em nota aos fiéis se pronunciaram profeticamente contra tentativas de manipulação da fé no contexto atual de nosso País: “A manipulação religiosa sempre desvirtua os valores do Evangelho e tira o foco dos reais problemas que necessitam ser debatidos e enfrentados em nosso Brasil. É fundamental um compromisso autêntico com a verdade e com o Evangelho. Ratificamos que a CNBB condena, veementemente, o uso da religião por todo e qualquer candidato como ferramenta de sua campanha eleitoral”[1]. Que Nossa da Conceição Aparecida, padroeira do povo brasileiro, interceda para que nossa fé nunca seja anestesia, mas injeção de ânimo para perseverarmos na construção do Reino de Deus que começa no hoje de nossas vidas.



[1] Nota oficial da presidência da CNBB, “Por ocasião da Campanha Eleitoral do Segundo Turno das Eleições 2022”. Disponível em: << https://www.cnbb.org.br/nota-cnbb-exploracao-fe-religiao-votos-2-turno/>>

 

sábado, outubro 08, 2022

CRÔNICA: Democracia em construção


 

Esta semana tive a oportunidade de participar do XVII Simpósio Internacional de Filosofia e Teologia, promovido pela Faculdade Jesuíta, com o tema “Filosofia e teologia no Brasil hoje: questões, desafios e tarefas”. Os temas da reflexão giraram em torno da realidade brasileira no atual contexto de duzentos anos da proclamação da Independência do Brasil e do segundo turno eleitoral no País.

Destaco alguns aspectos da brilhante conferência do professor doutor Newton Bignotto de Souza (UFMG), a seguir destaco alguns pontos, com base no referido professor, que podem nos ajudar a refletir neste contexto espinhoso que estamos vivendo. Somos convidados a:

  • ·        Constatar as ameaças reais a democracia e ao mesmo tempo sermos capazes de pensar a trajetória da democracia no Brasil. Se o tempo presente nos desafia, o passado nos auxilia sem dar conta de tudo.
  • ·        Discernir os problemas reais que precisam ser solucionados, como o mal extremo das desigualdades sociais e a fome de mais de 30 milhões de brasileiros, dos fantasmas imaginários.  
  • ·        Considerar inadmissíveis quaisquer ameaças a Democracia e suas Instituições.

Somos um País que já tem uma história democrática que precisa ser revisitada e valorizada por nós brasileiros, coisa que só será possível via educação de qualidade, que forme pessoas com conhecimento, autonomia e senso crítico. Que democraticamente o segundo turno eleitoral possa transcorrer, que democraticamente possamos administrar os conflitos e divergências.

A questão da democracia permanece e permanecerá sempre aberta, me parece que isso lhe é próprio. A democracia é um regime em construção continuada. Que sejamos construtores e guardiães da democracia. Viva a democracia! Viva ao povo brasileiro!

domingo, outubro 02, 2022

CRÔNICA: Festa da Democracia

Cerca de 156 milhões de brasileiros podem exercer o direito constitucional do poderoso voto. Pela primeira vez estou votando em trânsito, modalidade que permite aos votantes fora de sua zona eleitoral exercer sua cidadania. Lembrei-me da zona 20 da minha cidade, dos amigos que encontro na fila de votação. Quando cheguei ao local de votar, uma escola municipal muito bem cuidada, me deparei com uma zorra que pouco a pouco foi se organizando no interior da escola, em filas bem comportadas.

Na fila alguém quis me oferecer prioridade, não sei o motivo, ao que recusei e permaneci ali aguardando ansioso para me encontrar com a ilustre brasileira que se manifesta de tempos em tempos e se encontra individualmente com suas visitas na privacidade de uma cabine. No ambiente um clima de alegria, de encontro, de proximidade das pessoas levando nas mãos o título de eleitor como quem leva a preciosa chave de um tempo novo.

No falatório tanta coisa se escuta: é o candidato que faz hospitais, é aquele nosso vizinho, é aquele que eu gosto de ouvir, vou votar naqueles que não irão ganhar, vim ajudar meu candidato, etc. Tanta conversa que num primeiro olhar parece conversa fiada, mas se nos atentarmos expressa aquilo que cada um têm na sua consciência, seus anseios e esperanças, revelam também a crueza e a liberdade política daqueles que ouvi.

O clima era realmente de festa, com todos os presentes vestidos da importância do voto. Nesta hora do Brasil, que apresenta tantas sombras, possamos retomar as eleições como a verdadeira festa da democracia com o respeito e a tranquilidade necessários para garantir o voto livre, seguro, aditável. Que nosso voto seja sempre voto de esperança em dias melhores para todos os brasileiros e brasileiras.

segunda-feira, setembro 26, 2022

TEXTO: O presbítero homem da Palavra

 INTRODUÇÃO

Estamos em pleno o mês dedicado a Palavra de Deus, a Bíblia, refletindo o livro de Josué com o lema “O Senhor teu Deus está contigo onde quer que andes” (Js 1, 9) um Deus que jamais nos abandona. Nas próximas linhas nos dedicaremos a refletir inspirados no mês da Bíblia no Brasil sobre o presbítero como homem da Palavra.

1.               Missão do presbítero

Quando um presbítero é ordenado o bispo pergunta ao candidato: “Queres com dignidade e sabedoria, desempenhar o ministério da Palavra, proclamando o evangelho e ensinando a fé católica?” Daí se responde com generosidade de coração e confiança no auxílio de Deus: Sim. Neste momento o presbítero se torna então o homem da Palavra, não uma Palavra qualquer, mas a Palavra de Deus. O presbítero então assume a missão de diariamente se alimentar da Sagrada Escritura, deve estudá-la à fundo, meditá-la, rezar e até mesmo memorizar a Palavra de Deus. Tudo isso para que o presbítero seja na comunidade o primeiro a colocar em prática, a guiar-se pela Palavra de Deus. Ao presbítero cabe a missão de ser sentinela da Palavra, de recordar e instruir o povo de Deus nos ensinamentos da Palavra. Vemos a importância do ministério do presbítero e ao mesmo tempo a responsabilidade diante de Deus e dos homens.

2.               Pregação da Palavra

O presbítero prega não só durante os ritos litúrgicos da Igreja, ele prega o tempo todo como a própria vida, mais do que mestres as pessoas desejam que os presbíteros sejam testemunhas da Palavra, que a encarnem em seu agir cotidiano. A pregação deve ser legitimada pela vida do pregador. Na segunda carta de São Paulo a Timóteo 4, 2; está dito: “prega a Palavra, insiste oportuna e inoportunamente, repreende, censura e exorta com bondade e doutrina”. O presbítero deve ser fiel a Palavra e não deve temer as incompreensões humanas, pois como nos ensina Atos dos Apóstolos 5, 29: “É preciso obedecer antes a Deus do que aos homens”. O presbítero como homem da Palavra muitas vezes será o homem incompreendido.

3.               Homilia – conversa familiar

Como presbítero o lugar privilegiado de anúncio da Palavra de Deus é o momento da homilia (conversa familiar) durante as celebrações rituais da Igreja. Na homilia o presbítero assume o lugar daquele que deve instruir a comunidade de fé na escuta, entendimento e acolhida da Palavra de Deus que sempre nos revela algo novo e nos convida a conversão. Cabe ao presbítero zelar para que a Palavra seja bem proclamada na liturgia, lida em alto e bom som, com clareza e competência, para que todos compreendam o que está sendo proclamado. Se as pessoas ouvirem bem as leituras a homilia já está encaminhada.

Na preparação da homilia antes de tudo o presbítero deve se colocar em oração e invocar a luz do Espírito Santo de Deus, com a unção do Espírito o presbítero discerne a leitura e prepara homilia para toda comunidade de fé. É o Espírito Santo que irá fazer arder o coração dos fiéis como aconteceu no caminho de Emaús (cf. Lc 24, 32). O Papa Francisco no seu documento Alegria do Evangelho recomenda que as homilias não sejam longas, que não ultrapassem dez minutos, e que contenham sempre: um pensamento teológico – que ajude a aprofundar o sentido bíblico; uma imagem – uma espécie de história do cotidiano, atualização das leituras; um afeto – que deixe um sentimento para que o povo possa rezar o que foi ouvido, pois os afetos também determinam nosso agir.

CONCLUSÃO

Cabe ao presbítero ensinar não a própria sabedoria mas a Palavra de Deus e convidar instantemente a todos à conversão e à santidade (PO, n. 04) pois diz Romanos 10, 17: “a fé vêm pelo ouvido, o ouvido, porém, pela palavra de Cristo”. Ao presbítero cabe sempre guardar a Palavra de Deus em seu coração, viver da Palavra, para que esta Palavra que está no coração possa transbordar em boas obras, pois a boca fala do que está cheio o coração (Mt 12, 34). Que presbíteros e todo povo de Deus possam viver sempre a altura do Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo (Fl 1, 27).

Que inspirados pelo Espírito Santo de Deus possamos fazer da Palavra de Deus o nosso tesouro, deixemos que a força da Palavra transforme a nossa vida. E para encerrar deixo novamente, a passagem que mencionei no início, de Josué 1, 9: “O Senhor teu Deus está contigo por onde quer que andes”.

PARA REFLETIR

- Leia o versículo de Josué 1, 9. Pergunte-se: O que o texto diz? O que o texto me diz? O que o texto me leva a dizer a Deus?  

REFERÊNCIAS

Presbiterorum Ordinis. Vaticano II.

Evangelii Gaudium. Papa Francisco.

Presbítero, uma vocação a ser vivida à altura do evangelho:

<<https://www.vidapastoral.com.br/artigos/ministerio-presbiteral/presbitero-uma-vocacao-a-ser-vivida-a-altura-do-evangelho/>>

Setembro e a Bíblia: ‘O Presbítero e a Palavra de Deus’:

<<https://arquidiocesesorocaba.org.br/setembro-e-a-biblia-o-presbitero-e-a-palavra-de-deus/>>

SAB. Mês da Bíblia 2022. Livro de Josué. Paulinas.

Campanha da Fraternidade 2026: Tanta gente sem casa e tanta casa sem gente

  O tema da Campanha da Fraternidade 2026 é Fraternidade e Moradia, e lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1, 14). Trata-se antes de tudo do ...