quinta-feira, dezembro 28, 2023

CRÔNICA: Lá caminha a Virgem da Penha

Nestes dias em que o ano vai se esvaindo, como a areia escorrendo de uma ampulheta, estou tendo dias de descanso e a oportunidade de pensar na vida e revisar minha caminhada de fé. Subi em oração a montanha sagrada do Convento da Penha, e num dia atípico de neblina e temperatura amena ouvi o pregador da Missa dizer três características que nos apontam a sacralidade daquela montanha: o mar ao pé da colina recordando a imensidão dos desígnios de Deus; o rochedo do monte recordando que só Deus deve ser o fundamento de nossa vida; e a mata que protege a sacralidade do Convento nos recordando a harmonia que deve existir entre fé e ecologia e ao mesmo tempo a urgente conversão ecológica.

No alto do Convento, naquele lugar sagrado aonde caminha entre os seus devotos (as) a Virgem da Penha levando todos a encontrar seu sagrado Filho. Lá por mais de cinco séculos se pode experimentar o auxílio divino pelos pequenos, pelos pobres, pelos doentes, pelos necessitados, pelos excluídos, etc... É uma montanha que se tornou verdadeira casa de Mãe, aonde todos podem entrar e encontrar acolhida.

Ao descer as ladeiras do Convento da Penha contemplando a natureza exuberante e os famosos macaquinhos barulhentos, minha irmã de modo desinteressado fez menção agradecida a todos que desde os primórdios até os dias de hoje ajudaram e ajudam na construção e manutenção daquele espaço multiplamente sagrado. E curiosamente em visita à Casa de Memória de Vila Velha nos deparamos com um belo quadro de Luzia Grimaldi, personagem histórica que se tornou a primeira mulher a comandar uma capitania hereditária do Brasil Colônia. Luzia se tornou a capitoa do Espírito Santo de 1589-1593, devido a morte de seu marido Vasco Fernandes Coutinho Filho que morreu sem deixar herdeiros. A capitoa conduziu muito bem a capitania chegando a defendê-la de uma tentativa de invasão dos ingleses. Foi justamente Luzia Grimaldi que fez a doação em 1591 do terreno aonde seria construído o futuro Convento da Penha, a primeira mulher a governar o Espírito Santo estava convencida da sacralidade daquela montanha e dos benefícios que poderiam prover daquele lugar para todos os capixabas de fé.

A gratidão é a memória do coração, concordo com esta afirmação. Manifesto minha gratidão ao bom Deus que nos permite acesso a um lugar tão especial como o Convento da Penha, lugar aonde podemos caminhar com Maria e com Ela aprender as lições de Jesus. Mas manifesto também minha gratidão aos homens e mulheres de fé que nos precederam e que colaboraram de alguma forma para que o Convento da Penha continuasse e continue a ser um lugar especial de encontro consigo mesmo, com os outros, com a natureza e principalmente com Deus. E que nós possamos dar também nossa colaboração para que o Convento da Penha possa se perpetuar como um lugar que expressa aquilo que de melhor o nosso Estado tem para oferecer ao Brasil e ao mundo: o dom da fé.  

 




CRÔNICA: Fim de ano e as ansiedades: o remédio da fé cristã

No fim do ano a ansiedade aumenta em nossos corações, ouvi num telejornal que a ansiedade cresce em cerca de 75%, não me pergunte como se mede isso caro (a) leitor (a). No estrangular derradeiro do ano começamos a melancólica avaliação, uma análise das metas programadas, contabilização dos resultados obtidos, etc. Uma lógica de produção toma conta de nós, como se a produção fosse o único critério para sabermos se obtivemos ou não sucesso em nossas empreitadas.

A vida humana é muito mais complexa do que metas pré-fixadas. Graças à Deus estamos submetidos às surpresas da vida, as vezes promissoras e alegres ora desastrosas e tristes. Infelizmente os critérios do consumismo é que tem sido utilizados para afirmar uma vida feliz. Se você consome, você existe e é feliz. Se você não consome você é o único responsável pela sua má sorte de vida. Cruelmente afirma-se que qualquer pessoa pode ser o que quiser, basta querer. Mas que mentira cabeluda, afirmava uma canção popular.

Ao fim deste ano fico pensamento em quantos lugares pude visitar e conhecer; com quantas pessoas partilhei a vida; quanto conhecimento tive a oportunidade de obter ... De fato, foram muitas atividades e experiências de crescimento e humanização. Naturalmente chegamos nesta hora do ano com certo cansaço e exaustão, pois o tempo não para e nossas vidas estão cada vez mais aceleradas.

No meio deste turbilhão a fé cristã pode oferecer o desejado descanso e o remédio necessário para a avidez capitalista. É de Jesus Cristo a expressão: “Vinde a mim todos vós que estais cansados e fatigados sobre o peso dos vossos fardos que eu vos darei descanso, tomai sobre vós o meu julgo e aprendei de mim que sou manso e humilde de coração” (cf. Mt 11, 22-30). Com Jesus aprendemos uma lógica que vai na contramão da lógica do acúmulo e do consumo. Com o mestre Jesus aprendemos a lógica da simplicidade, do necessário, da humanização, do altruísmo, enfim a lógica do amor.

Infelizmente os homens e a mulheres de nosso tempo pensam que não precisam de Deus, talvez por isso o mundo está como está. Nós que temos a alegria de sermos abençoados com a presença de um Deus que se importa conosco e que se faz próximo, não podemos guardar esta alegria só para nós. O mundo tem sede de salvação, e esta salvação tem nome, é uma pessoa chamada Jesus Cristo. Caro (a) leitor (a) o tom religioso desta crônica visa suscitar esperança num mundo tão complexo e cheio de sombras, num mundo aonde já vivemos uma “terceira guerra mundial em pedaço” (expressão do papa Francisco). Que a fé se renove em nossos corações e que venha o próximo ano e que ele nos encontre lutando pela construção de um mundo melhor. 



 

sábado, novembro 04, 2023

CRÔNICA: No diálogo a plurivivacidade

Recordando o teólogo João Batista Libânio SJ. , grande intelectual brasileiro, vez por outra é bom nos questionarmos sobre a etimologia das palavras. De origem grega a palavra diálogo é composta de diá + logos, “através da Palavra”. O diálogo se dá no encontro entre duas ou mais pessoas, um encontro mediado pelas palavras. Como são poderosas as palavras na sua capacidade de desvelar os nossos pensamentos. Recentemente me frustrei com uma pessoa que considerava tão capacitada para o diálogo... E sei que o outro não tem culpa, culpa maior tenho eu, em colocar nos outros expectativas que são só minhas.

Suponho que no diálogo precisamos ter abertura para ouvir o outro que pensa diferente de mim, o diálogo verdadeiramente fecundo acontece entre pessoas que mesmo pensando diferente conseguem se aproximar e respeitosamente trocar conhecimentos. Certa vez ouvi: “Nunca aprendi nada de novo com aqueles que pensam igual a mim”.

Mas, quantas coisas entravam o desejo de boas conversas e diálogos fecundos de novidade. Entraves como o preconceito, o fundamentalismo, a intolerância, o racismo, o ressentimento, a violência, etc. No referido diálogo que tentei suscitar, percebi que minhas palavras não eram toleradas, que o meu lugar de fala enquanto homem religioso não estava sendo considerado. Num primeiro impulso veio o sentimento de raiva, de revolta e desejo de revanche. Um respiro profundo e então pude recobrar a racionalidade perdida por alguns instantes. Silêncio!

Decido então seguir e dialogar com aqueles que quiserem dialogar. Descubro que “ídolos” devem ser mantidos à distância, porque de perto, todos nós nos assemelhamos em nossas mazelas. E revestido do meu lugar de fala, recordo o que já dizia o livro bíblico de Jeremias: “Maldito o homem que confia no homem” (Jr 17, 5). Com estas palavras de desassossego, manifesto minha indignação e ao mesmo tempo reafirmo minha fé em cada homem e mulher que se coloca no caminho de aprender a dialogar. No diálogo podemos criar um mundo de plurivivacidade, no monólogo, que hipocritamente tenta se disfarçar em tons de diálogo, a vida se enrijece e definha. Na vida conjuguemos o verbo dialogar.



terça-feira, outubro 17, 2023

TEXTO: 7 pontos importantes da reflexão do 12º Encontro das CEB’s

 

12º Encontro das CEB’s do Espírito Santo – Regional Leste 3 – CNBB

Tema: “CEB’s: Igreja em saída na busca da vida plena para todos e todas”.

Lema: “Vejam! Eu vou criar um novo céu e uma nova terra” (Is 65, 17).

Data e local: 13 a 15 de outubro de 2023.

Local: Paróquia Divino Espírito Santo, Diocese de Colatina (ES).

Assessor teológico: Padre Benedito Ferraro.

Sigla: CEB's = Comunidades Eclesiais de Base


7 pontos importantes da reflexão do 12º Encontro das CEB’s

(Será lançada posteriormente uma síntese sobre os pontos discutidos durante o Encontro)

1. Formação integral/ continuada. Escolas de formação de qualidade. Criar Projeto de Pastoral para Diocese;

2. Identidade das CEBs. Papel protagônico. Opção pelos pobres.

3. O papel da mulher e seu lugar na Igreja.

4. A questão das Juventudes e seu protagonismo.

5. O afastamento das pastorais sociais. Articulação das pastorais sociais e políticas sociais.

6. Participação para enfrentar a crise ecológica. Laudato Si! Refletir sobre a diversidade de gênero.

7. Assembleia dos organismos do povo de Deus.

(Fonte: Vicente S. Falchetto)


TEXTO: Reverberando o 12º Encontro das CEB’s do Espírito Santo Regional Leste 3

 

12º Encontro das CEB’s do Espírito Santo – Regional Leste 3 – CNBB

Tema: “CEB’s: Igreja em saída na busca da vida plena para todos e todas”.

Lema: “Vejam! Eu vou criar um novo céu e uma nova terra” (Is 65, 17).

Data e local: 13 a 15 de outubro de 2023.

Local: Paróquia Divino Espírito Santo, Diocese de Colatina (ES).

Assessor teológico: Padre Benedito Ferraro.

Sigla: CEB's = Comunidades Eclesiais de Base

 

Reverberando o 12º Encontro das CEB’s do Espírito Santo Regional Leste 3

(O texto a seguir foi apresentado em parte na “Fila do Povo”, na tarde do dia 14 de outubro)

Eu Irineu Claudino Sales, padre jovem da Diocese de Colatina, filho da caminhada das CEB’s, aproveito a oportunidade para propor uma breve reflexão. Nosso querido Estado do Espírito Santo é marcado pela caminhada das CEB’s, aqui aconteceu em 1975 o primeiro Intereclesial das CEB’s. Apesar das correntes contrárias são milhares de CEB’s espalhadas em todo o território capixaba (exatamente são 3.494 CEB’s espalhadas em todo o Estado). No entanto, os tempos são outros, o contexto de mudança de época tem causado profundas transformações dentro e fora da Igreja.

Nossas CEB’s têm se tornado apenas “comunidades” onde se celebram os sacramentos. A mudança geográfica da população do campo para as periferias das grandes cidades não tem sido acompanhada, na mesma velocidade, pela implantação de novas CEB’s, fazendo com que o catolicismo esteja cada vez menos presente nas grandes periferias das cidades. Empolgado com 15º Intereclesial das Comunidades Eclesiais de Base, que aconteceu na Diocese de Rondonópolis, o sociólogo Pedro Ribeiro vislumbrou a 4º Geração das CEB’s. Mas, penso que cabe a cada um de nós que tem o coração de CEB’s fazer uma autocrítica: será que já despontou uma nova geração das CEB’s? Será que temos leigos e leigas formados na espiritualidade das CEB’s? Qual a faixa etária daqueles que compõe as CEB’s? As CEB’s são pobres e estão com os pobres?

Questionamentos que precisamos fazer para vislumbrar saídas criativas, para que as CEB’s não percam nem espaço e nem relevância na evangelização dos homens e mulheres de nosso tempo. O teólogo Manoel Godoy afirma: “Dizíamos que as CEB’s eram um novo jeito de ser Igreja, hoje é preciso dizer que as CEB’s devem encontrar um novo jeito de ser CEB’s”. Rumo a uma “Igreja em Saída”, comunhão, participação e missão como nos pede o Sínodo da Sinodalidade é preciso ouvir os sinais dos tempos.

As CEB’s bem como as paróquias precisam superar um modelo evangelizador rural e abraçar de uma vez por todas a cultura da cidade, que hoje está presente até mesmo na mentalidade de quem mora no interior. As CEB’s precisam ser lugar da juventude, aonde ela seja acolhida, ouvida, valorizada, e assim evangelizada; os jovens tem muito a ensinar à Igreja. Os jovens têm preocupações espirituais, humanas, sociais e ecológicas que podem nos ensinar muito. É preciso voltar ao essencial das CEB’s,  e ao mesmo tempo deixar no passado como parte de nossa caminhada histórica tudo aquilo que é supérfluo ou ultrapassado. Para os novos desafios, novas respostas.

Que nossas CEB’s sejam lugares construídos na força da Palavra de Deus, sejam pequenas comunidades pobres que acolhem os pobres, e que através da diversidade ministerial o protagonismo dos leigos e leigas seja reavivado como remédio ao clericalismo.  Depois de 48 anos, o 16º Intereclesial das CEB’s acontecerá em 2027 novamente no nosso querido Estado do Espírito Santo. Que seja motivo de reascender em todos nós a esperança numa Igreja de comunidades eclesiais de base, aonde se evangeliza de modo integral.


sábado, outubro 07, 2023

TEXTO: Mês missionário: “Igreja em saída” pela missão universal

(Texto publicado originalmente no site da Paróquia São Pedro, Baixo Guandu (ES) 
https: //pspbg.com.br/mes-missionario-igreja-em-saida-pela-missao-universal/ )

“Ide! Da Igreja local aos confins do mundo” é o tema da Campanha Missionária de 2023. O lema é de inspiração bíblica: “Corações ardentes, pés a caminho” (Lc 24,13-35). Anualmente o Papa lança uma mensagem para o mês missionário, na mensagem deste ano o Papa Francisco concentrou-se em três pontos de reflexão sobre a missão: corações ardentes, olhos abertos, pés a caminho.

Corações ardentes – O missionário deve ter um coração aquecido pelas Escrituras Sagradas, nelas encontra sustento nas dificuldades, orientação para o caminho e o próprio mandato missionário. Só o coração de quem se deixa conquistar e restaurar pelo amor de Jesus é que pode se tornar um missionário (a) que fale aos corações feridos dos irmãos e irmãs.  

Olhos abertos – Ao partir o pão os olhos dos discípulos se abriram e eles reconheceram Jesus. Na Eucaristia, Jesus o Pão partido para nós, ensina a sermos também nós, pão partido para os irmãos e irmãs necessitados. Que nossos olhos missionários estejam abertos para enxergar Jesus crucificado nos sofredores deste mundo.  

Pés a caminho – O encontro com o Senhor nos enche de alegria, uma alegria tão grande que temos urgência de partilhar com todos e todas. Daí brota a missão de levar até os confins do mundo a Boa Nova da salvação, não como fruto de um pesado dever, mas como transbordamento da alegria de termos encontrado Jesus Cristo.

O mês missionário com a sua Campanha Missionária quer evidenciar, neste ano de 2023, que a Igreja local tem o dever de evangelizar cada homem e cada mulher no mundo inteiro. A missão é sempre um grande desafio porque ela tem o tamanho do mundo, aonde vive um homem ou uma mulher, ali está um espaço de missão. Todos os batizados e batizadas podem colaborar com o movimento missionário da Igreja, seja através da oração, ação missionária, ofertas de dinheiro, ofertas de sofrimentos, com o próprio testemunho de quem vive como discípulo (a) missionário (a).

Ouvindo o apelo do tema deste mês missionário, “Ide! Da Igreja local aos confins do mundo”, nossa Diocese de Colatina está retomando gradativamente o projeto “Igrejas Irmãs”, através do qual colaboraremos de modo direto com ofertas e o envio de missionários (as) para a Diocese de Marabá (PA). O projeto “Igrejas Irmãs” é uma iniciativa da CNBB para promover a cooperação missionária entre as dioceses do Brasil.

Durante o mês missionário somos convidados a rezar com a Novena Missionária, que a cada ano é preparada e encaminhada a todas as dioceses do Brasil. Durante nossas liturgias dominicais podemos decorar com símbolos missionários nosso espaço celebrativo. É sempre importante realizar visitas missionárias as famílias afastadas, aos hospitais, aos asilos, aos presídios, etc, tendo em mente que não bastam visitas esporádicas, antes é preciso ser missionário (a) todos os dias do ano. Ser “Igreja em saída” é ter coragem de colocar os pés a caminho e sair para construir a cultura do encontro. Fazer como Jesus, ir aonde as pessoas precisam de nós.

Ainda no mês de outubro sempre é realizada a Coleta Missionária, por meio de um envelope personalizado que deve ser devolvido no Dia Mundial das Missões. Com as ofertas da Coleta Missionária, que este ano se realizará nos dias 21 e 22 de outubro, a Igreja ajuda a milhares de dioceses pobres pelo mundo à fora. Através destas ofertas nós colaboramos de modo concreto com a missão universal, ad gentes, sejamos generosos na partilha.

Que o testemunho de oração e de amor pela missão de Santa Teresinha do Menino Jesus, o ardor missionário do incansável São Francisco Xavier, possam nos inspirar nos caminhos da missão!

 

Para refletir:

1.               Tenho consciência da minha missão de batizado (a) de tornar o nome de Jesus conhecido e amado? De que forma eu dou testemunho missionário?

2.               O que pode ser feito para tornar nossas comunidades verdadeiras “Igrejas em saída” missionária?

 

Conheça o site das Pontifícias Obras Missionárias (POM) e acesse todo o material preparado para o Mês Missionário. Acesse: www.pom.org.br



segunda-feira, setembro 25, 2023

TEXTO: Círculos Bíblicos: um método de evangelização eficaz

Com o Concílio Vaticano II, de modo privilegiado através da Constituição Dogmática Dei Verbum, a Igreja reafirmou a Palavra de Deus como sacramento. “A Igreja venerou sempre as divinas Escrituras como venera o próprio Corpo do Senhor, não deixando jamais, sobretudo na sagrada Liturgia, de tomar e distribuir aos fiéis o pão da vida, quer da mesa da palavra de Deus quer da do Corpo de Cristo” (DV, n. 21). Da mesma maneira como cuidamos para que não se perca nenhum fragmento da Eucaristia, deveríamos cuidar para não perder a Palavra que nos é proclamada na liturgia. A mesma Dei Verbum esclareceu que para o cristão católico quando se fala em Palavra de Deus, estamos nos referindo a Sagrada Escritura (Bíblia) e a Sagrada Tradição (DV, n. 24).

Por muitos séculos a Bíblia era tida como um livro restrito a alguns especialistas, aos quais cabiam a função de instruir a toda a comunidade. O Concílio Vaticano II com seu desejo de voltar às fontes, colaborou para que surgissem iniciativas que promovessem a difusão da Bíblia a todo o povo de Deus. Neste sentido surge a metodologia da leitura popular da Palavra de Deus, uma forma de aproximar os fiéis da Sagrada Escritura, como um livro que é vivo e quer ser lido por todos e todas.

A Bíblia “Deixou de ser livro hermético (fechado), conhecido unicamente pelo clero, para ir às mãos do povo. Criaram-se círculos bíblicos que seguiram a genial metodologia de C. Mesters” (LIBÂNIO, p. 25). Nos pequenos grupos de círculos bíblicos, que se encontram nas casas, escolas, hospitais, presídios, associações, na sombra das árvores de nosso Brasil, etc, todos têm direito de fala, todos podem se manifestar a partir das provocações da Palavra de Deus. Na experiência da força da Palavra partilhada e vivida através dos círculos bíblicos tantas ações evangélicas se concretizaram, transformando às vezes bairros inteiros.

A aproximação mística e vivencial da Palavra de Deus que nos proporciona os pequenos círculos bíblicos converte nossos corações, nos ajuda a discernir a vontade de Deus e a atualizar a Palavra no hoje de nossas vidas. O saudoso arcebispo Dom Luiz Mancilha Vilela, um promotor dos círculos bíblicos, afirmava: “As 'Comunidades Eclesiais de Base - CEB's' começam a aparecer, a partir do encontro dos dois Livros, o Livro da Vida e o Livro da Sagrada Escritura” (VILELA, p. 19). A força transformadora e criativa dos pequenos círculos bíblicos reside justamente na força divina da Palavra de Deus.

Os pequenos círculos bíblicos combatem o fundamentalismo bíblico de tirar o texto do seu contexto. Os textos bíblicos a serem estudados e rezados são previamente preparados por uma contextualização sobre o tipo de texto, autor, datação, contexto, etc. No círculo bíblico a Palavra de Deus não é lida de modo mágico e homogêneo, mas lida a partir da complexidade e riqueza literária que lhe é própria.

Estamos vivendo o mês da Bíblia, uma celebração nacional de nossa Igreja Católica. O mês de setembro como mês da Bíblia tem sua origem nas celebrações dos 50 anos de instalação da Arquidiocese de Belo Horizonte, que em 1971, para marcar a festividade escolheu realizar uma série de ações acerca do estudo e meditação bíblica. Setembro foi escolhido por ser o mês em que liturgicamente celebramos a memória de São Jerônimo, grande amante e tradutor da Sagrada Escritura. A experiência foi tão frutífera que o Serviço de Animação Bíblica (SAB), das irmãs Paulinas, ajudou a organizar e levar adiante o projeto do mês da Bíblia. “Com a devoção propagada e os grupos de estudo bíblico se multiplicando, a CNBB passou a assumir a data comemorativa e instituiu oficialmente a celebração por todo o país”[1].

Celebrando este mês especial dedicado a Palavra de Deus somos convidados a repensar nossas práticas e opções pastorais, e a recolocar a Palavra de Deus como centro e alma de todo nosso agir pastoral enquanto Igreja. O contato com a Palavra de Deus nos ensina a pensar, é caminho de maturidade da fé, é remédio que nos cura de todo tipo de espiritualidade vazia e alienante. A opção pelos pequenos grupos de círculos bíblicos é uma ação muito eficaz para evangelização em nossos dias, com esquemas atualizados e flexíveis os pequenos grupos de círculos bíblicos podem ser uma reposta eficaz para evangelização nas cidades, nos condomínios e em grupos afins. Os pequenos grupos de círculos bíblicos podem nos ajudar a responder ao apelo do Papa Francisco de uma “Igreja em saída”, ao invés de esperar pelas famílias afastadas em nossas comunidades, que tenhamos a ousadia cristã de ir com a Palavra de Deus encontrar nossos irmãos e irmãs afastados lá aonde a vida deles acontece.

 

Para refletir:

1.               O que eu entendo por Palavra de Deus?

2.               A Palavra de Deus me provoca a realizar gestos concretos?

3.               Já participei de algum encontro dos pequenos grupos de círculos bíblicos?

 

Referências

LIBANIO, João Batista. Conferências Gerais do Episcopado Latino-Americano: do Rio de Janeiro a Aparecida. Paulus: São Paulo, 2007. (Coleção temas de atualidade)

LOURENÇO, Costa (org.). Documentos do Concílio Ecumênico Vaticano II (1962-1965). São Paulo: Paulus, 1997. (Documentos da Igreja; 1)

 VILELA, Luiz Mancilha. Sinal do Reino: no presente e no futuro. Vitória - ES: [s.n.], [s.d.].

 


[1] Por que setembro é o mês da Bíblia? Disponível em: https://www.a12.com/jovensdemaria/artigos/crescendo-na-fe/por-que-setembro-e-o-mes-da-biblia. Data de acesso: 25 mar. 2023. 



 

terça-feira, setembro 12, 2023

CRÔNICA: Setembro amarelo: vencer a tentação

 

O grande e incompreendido Van Gogh pintou a famosa tela “O quarto de Arles” (1889). Uma pintura rica em cores vibrantes, cálida nos detalhes em madeira e na intimidade do lençol corado que parece chamar ao repouso. Há indícios de que o autor quis expressar seus sonhos e pesadelos. No quarto de Arles a janela está fechada... A porta está fechada... embora cheio de cor e aconchego parece que o autor da obra está sem horizontes, só enxerga aquilo que imediatamente o circunda, ainda que o faça com a percepção aguçada dos mínimos detalhes.

Um homem de extrema sensibilidade, uns dizem que era alcoólatra e outros que era esquizofrênico. Seu grande amigo, com quem se correspondia por centenas de cartas, era seu irmão Theo, que significa “Deus supremo”.  Van Gogh amigo de Theo se suicidou com um tiro no peito aonde estava guardado o coração de esplendorosas obras de arte. Suas últimas palavras revelam o dilema interno em que vivia: “A tristeza vai durar eternamente”. É como se ele visse na morte a libertação de tamanha angústia e tormento. Fico pensando sagaz leitor como que o mundo é extremamente cruel com as pessoas sensíveis.

Que possamos pintar a vida de cores alegres, que os detalhes não nos passem despercebidos. Que a janela verde de esperança do quarto de nossa intimidade esteja aberta para receber a luminosidade do horizonte, sempre nos chamando a seguir adiante. Que nosso amigo Theo, que jamais nos abandona, esteja perto de nós a ouvir nossas lamúrias, a aliviar nossas ansiedades, a nos convidar ao diálogo do amor que faz a vida valer a pena. Que nosso quarto de Arles seja lugar do aconchego e do descanso, mas que jamais seja lugar de anulação e isolamento. Que de posse da porta de nosso quarto possamos permitir que outros visitem e contemplem o aconchego do seu interior. Esta é minha prece para todos aqueles homens e mulheres de fina sensibilidade que provam as agruras da vida. Com a amizade de Theo temos a certeza de que o amor é que durará para sempre. 



quinta-feira, agosto 17, 2023

CRÔNICA: Um homem da Igreja: Dom Geraldo Lyrio Rocha

 

Há algum tempo venho pensando em iniciar uma série de textos sobre meus familiares falecidos, para lhes fazer memória, para perpetuar por mais um tempo o legado de meus ancestrais. Curiosamente comecei a executar esta tarefa, não como havia planejado, escrevendo sobre meus antepassados, mas escrevendo sobre aqueles que se tornaram meus familiares na mesma profissão de fé cristã católica.

Já escrevi sobre meu amigo o padre Jacy Cogo e agora dedico estas palavras ao memorável Dom Geraldo. Um capixaba dos mais ilustres, homem culto, de formação refinada, um líder religioso de grande influência. Foi o primeiro bispo diocesano de Colatina, realizou verdadeiros prodígios na evangelização do nosso povo, se tornou ainda em vida um verdadeiro mito na liturgia, no fino trato com as pessoas, na formação do laicato adulto na fé, na fidelidade ao Concílio Vaticano II, etc.

Sempre o admirei nas palestras e formações para o clero capixaba, momentos em que ele demonstrava diplomacia e ao mesmo tempo autoridade episcopal. Era um homem que tinha consciência da sua vocação e vivia integralmente como um servo de Deus e um verdadeiro membro da Igreja.  Quando celebramos em 2022 os trinta e dois anos de instalação da Diocese de Colatina, fui designado a buscar Dom Geraldo, já bispo emérito de Mariana, que morava no centro de Vitória. No caminho me atrasei pelo trânsito complicado da capital de nosso Estado, quando cheguei ele já estava aguardando ansioso, com sua refinada educação não reclamou da demora e logo seguimos para nosso destino. No caminho a conversa foi extremamente agradável, nosso assunto foi justamente o pontificado do Papa Francisco e o Documento de Aparecida, temas que são objeto de minha pesquisa no mestrado.

Dom Geraldo era um autêntico filho da Igreja, a amava como verdadeira Mãe, nunca o vi fazer uma crítica contumaz a Instituição, com sua sobriedade e inteligência sempre procurava soluções para os desafios impostos a Igreja. Recentemente tive a oportunidade de participar do retiro do presbitério da Diocese de Colatina que foi assessorado por Dom Geraldo. Iniciamos nosso retiro exatamente no dia treze de março, dia do aniversário natalício de 81 anos do ilustre epíscopo. Transcrevo algumas frases de Dom Geraldo durante sua pregação do retiro, assim homenageio este homem da Igreja, que na peleja da missão encontrou a sua páscoa definitiva. Um incansável servidor que consumiu toda sua vida dedicando-se a sua amada: a Igreja. Cumpriu a missão de um Evangelista. 

“O sacerdote é pobre de alegrias meramente humanas: renuncia a tantas coisas! E, visto que é pobre – ele que tantas coisas doa a outros - , a sua alegria deve pedi-la ao Senhor e ao povo fiel de Deus”.

“É verdade que, no anúncio do Evangelho, há cruz; mas é uma cruz que salva. Pacificada com o Sangue de Jesus, é uma cruz com a força da vitória de Cristo que vence o mal e liberta-nos do maligno”.

“Uma vida cheia de Deus é uma vida feliz”.

“Irmãos, melhor do que ninguém, Jesus conhece os nossos esforços e resultados, bem como os fracassos e desvios”.

“O melhor lugar para a gente estar é lugar que Deus escolheu para nós”.

“Maria une-nos a Deus, porque nela Deus se uniu a nós e jamais nos deixou. Os olhos de Nossa Senhora sabem iluminar toda a escuridão”.

“O mundo esta todo conectado, mas desunido”.


Nascimento: 14/03/1942
Páscoa: 26/07/2023

quinta-feira, agosto 10, 2023

CRÔNICA: Bom cristão: o homem que derrubava muros


Uma homenagem a padre Jacy Cogo, padre salesiano de Dom Bosco, falecido em 30/07/2023, aos 82 anos de vida.

Com singelas palavras quero fazer memória de meu amigo padre Jacy Cogo, que foi morar junto de Deus. Um amigo que tive a oportunidade de conhecer durante o meu período formativo no seminário “Maria, Mãe da Igreja”. Quando o conheci ele já era idoso e acometido da doença de Parkinson, que afetava sua voz e movimentos.

Era um homem de formação intelectual refinada, um erudito. Certa vez quando o visitava ele começou a chorar porque estava perdendo da memória os textos dos escritores romanos clássicos que ele havia decorado em latim. Sinais do mal de Alzheimer que estava batendo a porta. Gostava de recitar o poema do escritor Catullo da Paixão, intitulado “A flor do maracujá”, com esse poema fazia uma encantadora catequese. Meu amigo possuía a sabedoria de vida, alcançada após uma vida de erros e acertos, de intensidade, de um coração inquieto e desejoso de mais.

Um esportista enquanto pode, certa vez quando morava em nosso seminário, já velho e de corpo travado pelas mazelas, madrugada adentro ele caiu da cama. Quando acordou disse ter sonhado que estava jogando bola e num lance foi arremessado ao chão. Salesiano por vocação dizia com naturalidade os fatos da vida de Dom Bosco e seus meninos. Um homem de uma religiosidade rara e lúcida, de uma fé que se compadecia da vida concreta dos homens e mulheres que encontrava pelo caminho.

Teria tantas histórias para contar deste meu amigo... nossos cafés, nossas conversas fraternas, as Missas em Coqueiral e no Santuário de Nossa Senhora da Saúde, a fuga para Ibiraçu que eu acobertei, a carta em italiano mal ditada pelo Jacy e mal escrita por mim...tanta vida compartilhada. Não me esquecerei que meu nome é proveniente do grego IRENE que no fundo significa paz, padre Jacy sempre me recordava a etmologia de meu nome.

Na Missa de corpo presente que ocorreu em Belo Horizonte, num funeral tão simples e despojado como era o próprio padre Jacy, Dom Décio Sossai Zandonade confrade da Congregação Salesiana disse: “Não existiam muros que padre Jacy não pudesse derrubar”. Uma expressão muito feliz para lembrar o livre e brincalhão padre Jacy. Já no final da vida, no último mês de maio de 2023, eu estive com ele aqui em Belo Horizonte, já não se lembrava de mim devido a doença. Pensei: ele pode até não saber quem eu sou, mas eu sei quem ele é.

Faço memória deste amigo, agradeço ao bom Deus pela amizade gratuita e desinteressada que tínhamos. Acho que posso dizer que convivi com um bom cristão. Padre Jacy você foi importado para dentro de minha existência, não será esquecido, e seu exemplo me ajudará a ser melhor. Assim a vida se desenrola nos trilhos irreversíveis do tempo. Espero que quando chegar o meu ocaso eu esteja maduro por ter experimentado a intensidade da vida. 


 

terça-feira, agosto 08, 2023

CRÔNICA: É triste prá cachorro

Os fatos que contemplei nos últimos dias me fizeram recordar o pensamento do filósofo e sociólogo alemão Theodor Adorno. O referido pensador diz que a “barbárie” leva os indivíduos que a portam a praticar violências de todo tipo, a regredirem ao estado de “primitivismo de violência injustificadas”[1]. O único remédio possível seria a educação para autonomia que conduzisse a uma sociedade emancipada.

Fiquei estarrecido ao ler a notícia de que um jovem de vinte e seis anos, tudo indica que devido ao atropelamento acidental de um cachorro (registre-se caro leitor: quem nem sequer morreu), foi parado à frente por um motociclista que lhe alvejou com uma dezena de tiros que acabaram com sua vida. Tudo isso se deu na região metropolitana de Belo Horizonte. Que tipo de gente é esta? Quem são estes que amam os animais e matam um ser humano?

Outro noticiário que me causou espanto foi sobre casos de racismos e homofobia que ocorreram durante a Jornada Mundial da Juventude em Lisboa. Jovens brasileiros de uma comunidade quilombola foram hostilizados e xingados de macacos por outros jovens que provavelmente participavam do mesmo evento. Como pode num evento cristão acontecer esse tipo de coisa? Que diferença o cristianismo faz na vida destes agressores?

É triste prá cachorro! Ver animais domésticos serem tratados como crianças de colo enquanto se agride e mata, com tiro a queima roupa, a vida humana. Ver jovens pretensamente cristãos serem tão intolerantes, racistas e homofóbicos. Chega de barbáries.



[1] Emancipação e barbárie: Perspectivas de uma concepção dialética de educação em Theodor Adorno. Disponível em: https://ufsj.edu.br/portal2-repositorio/File/existenciaearte/Edicoes/6_Edicao/Emancipacao_e_Barbarie_Perspectivas_de_uma_concepcao_dialetica_de_educacao_em_Theodor_Adorno.pdf. Acesso em: 08 de ago. 2023. 

 

segunda-feira, maio 29, 2023

CRÔNICA: Celebrar nossa africanidade


Os dias do mês de maio se debulham na vagarosidade dos agonizantes. Em um mês parece que vivemos coisa demais... No dia 25 de maio celebramos o dia Mundial da África, deste imenso continente que ainda precisa ser desbravado por nós brasileiros. Conhecer mais sobre o continente africano é conhecer melhor as raízes ancestrais de mais de cinquenta e cinco por cento da população nacional.

Nas conversas no vai e vêm da vida, neste mês em que vimos atos racistas ganharem as páginas dos noticiários internacionais e nacionais, alguém ao ver minha indignação diante de tais atos afirmou: “Você não é negro”. E o pior foi ouvir isso de uma pessoa negra. Posso não ser um negro retinto, mas sou negro e a cada dia tenho buscado me tornar negro.

A fala daquela pessoa reverbera aquilo que Neuza Santos Souza, grande ícone dos primórdios da militância negra no Brasil, dizia “enquanto a branquitude mantiver seus privilégios, invisibilizando tudo que é não branco, também ela perde, não alargando seus horizontes.” (SOUZA, 2021, p. 19) Eu me senti invisível, sei que não sou branco, e agora alguém diz que não sou negro, só me resta o lugar do não ser. Isto é a pressão que o racismo estrutural exerce sobre nós negros e que impede o intercâmbio frutuoso entre brancos e negros. Nesta batalha todos perdem, mas os negros perdem muito mais, e na maioria das vezes perdem o direito de existir.

Como pode num País com tantos negros demonizarmos tudo que lembra a África e seus habitantes? O racismo na sua crueldade colonizou as consciências de tal maneira que animalizou a pessoa negra, menosprezou sua cor de pele e seu cabelo, demonizou sua religião, suprimiu sua cultura... Quanta violência, quanta desumanidade e tudo isso influi diretamente no negro e na negra de hoje.

O racismo continua presente entre nós, ele tem a capacidade de se refinar e de se reinventar com uma astúcia diabólica, ele está dentro de todos nós. Na atualidade vivemos grandes retrocessos no combate ao racismo. Parece que as pessoas perderam o pudor e já não se envergonham de se declararem racistas ou de cometerem crimes contra a dignidade da pessoa negra. Celebrar o dia da África é ter coragem de olhar para as vítimas de ontem e de hoje, ousadia para discernir a situação dos afrodescendentes do nosso Brasil.

Encerro caro leitor, cara leitora, com as palavras de realismo e esperança da grande Neuza Santos Souza: “Saber-se negra é viver a experiência de ter sido massacrada em sua identidade, confundida em suas perspectivas, submetida a exigências, compelida a expectativas alienadas. Mas é também, e sobretudo, a experiência de comprometer-se a resgatar sua história e recriar-se em suas potencialidades” (SOUZA, 2021, p. 46).

Referência

SOUZA, Neusa Santos. Tornar-se negro: as vicissitudes do negro brasileiro em ascensão social. Rio de Janeiro: Zahar, 2021. 

sexta-feira, abril 21, 2023

CRÔNICA: Primeiro dia dos Povos Indígenas

Um dia de reivindicação e não de celebração!

Em julho de 2022 foi criado o dia dos Povos Indígenas, fazendo avançar a reflexão do dia do Índio criado em 1943. No último dia 19 de abril de 2023 celebramos então o primeiro dia dos Povos Indígenas e tal mudança que não é só um recurso linguístico, mas uma mudança de interpretação e de valores. Logo, num primeiro momento nos perguntamos: Mas existe diferença entre índio e povos indígenas?

No nível de reflexão que temos na atualidade podemos afirmar que índio e povos indígenas são sim diferentes, embora etimologicamente as palavras se identifiquem. A palavra índio traz em si uma carga muito negativa, se olharmos no retrovisor da história lembraremos a chegada de Colombo às Américas, batizando as pessoas que já habitavam aqui de índios, pois pensava ter chegado a Índia. O sociólogo Gilberto Caldas nos ajuda a refletir sobre a carga da palavra índio: foi utilizada para designar sujeitos imputáveis, primitivos, selvagens, era sinônimo de incapaz.

Sabemos do poder das palavras e que elas exercem uma força muito grande no nosso jeito de enxergar a realidade concreta da vida. Daí a importância de usarmos de modo mais assertivo, com mais precisão conceitual, a expressão Povos Indígenas. Primeiramente a expressão povos faz alusão a protagonismo, a diversidade e abraça a multiplicidade. Já a expressão indígena (aquele que é virado para dentro) se refere a pluralidade de identidades culturais, de idiomas, de religião, de modos de vida. Daí ser mais apropriado a expressão Povos Indígenas.

No entanto, toda vez que trazemos para o centro do debate grupos, pessoas, ou temas que estão na marginalidade dos interesses, logo ouvimos vozes inconformadas com as mudanças que se propõe. Esquecem que a linguagem é vida e está o tempo todo se transformando e para além da dificuldade de aceitar o novo, preferindo fazer a manutenção das velhas expressões que legitimam os privilégios e exclusões de sempre, alimentam preconceitos históricos.

Segundo o antropólogo brasileiro, Darcy Ribeiro, o indígena quer ter direito ao seu pedacinho de terra para continuar sua cultura, seu idioma, sua religião, com vida descente. Mas, as terras indígenas são muito valiosas em todos os sentidos, por cima e por baixo, despertam a ganância de muitos que guiados pelo capital invadem as terras indígenas promovendo destruição e mortes. Por quantos genocídios já passaram os povos indígenas do Brasil? Até quando nossos indígenas conseguiram resistir? Como nos afeta a situação atual dos Yanomamis?

Mas, como bons brasileiros tenhamos esperança. Esta mudança conceitual que aqui apresentamos de modo singelo, já é sinal de algo está em transformação. Vemos também com bons olhos a escolha de Sônia Guajajara para assumir a pasta do Ministério dos Povos Indígenas, pasta recém-criada, sendo a primeira mulher indígena a ocupar um ministério. Esperamos que sejam abertos caminhos para efetivação das demarcações de terras indígenas, bem como políticas públicas de proteção e manejo sustentável destas áreas. Que os povos indígenas tenham assegurados os seus direitos a terra, a cultura, a vida descente e que possamos aprender com eles a cultura do bem viver. 



 

domingo, abril 16, 2023

CRÔNICA: Virgem da Penha sede de alegria do povo capixaba

Exposição fotográfica: “Festas de N. Sra da Penha: fé, esperança e devoção”

Celebrar o oitavário de Nossa Senhora da Penha é celebrar as alegrias e esperanças de um povo cheio de fé. O povo espírito-santense, que traz nas cores de sua bandeira a marca da devoção mariana, se reúne em diversas e até gigantescas romarias que expressam as mais variadas necessidades humanas e ao mesmo tempo exprimem a gratidão por tantas graças alcançadas.  

Vendo as fotografias nas redes sociais deste momento tão especial de celebração, bate a saudade em meu coração, ao mesmo tempo rezo e me ponho a refletir sobre a força da fé que transborda em tantos gestos dos romeiros e romeiras que se colocam a caminho do Convento da Penha. E com isso eu também me faço romeiro.

Em Vila Velha, uma das cidades mais antigas de nosso amado Brasil está a sede da alergia do povo capixaba, a casa da Mãe, o Convento de Nossa Senhora da Penha. Lá do alto daquela colina encantadora, de olhos arregalados e vibrantes, com seu Sagrado Filho ao colo, Nossa Senhora da Penha mira com seu olhar seus filhos e filhas devotos que peregrinam pelas estradas da vida iluminados pela fé e amparados com amor de Mãe. Temos uma Mãe que nos ama e cuida de nós.

Diante dos calvários que todos nós enfrentamos na vida: seja daquele (a) que foi desenganado (a) pelos médicos; seja dos desempregados (as); seja dos endividados (as); seja dos aflitos (as); seja dos sem teto deixados na sarjeta; seja dos toxicodependentes; seja dos sem oportunidades; seja dos oprimidos e discriminados; seja dos explorados; seja dos presidiários e rejeitados; seja dos violentados; e tantos outros inumeráveis calvários. Enfim... quando tudo parece sem saída, ainda temos a quem recorrer, e Ela como boa Mãe que é, intercede e faz o amor de Deus transbordar em milagres que se gravam na sala dos milagres, mas acima de tudo se gravam no coração agradecido dos seus filhos e filhas. O povo capixaba tem sede de alegria, de vida boa, de alegria não só para alguns, mas alegria para todos.

De modo muito merecido o dia de Nossa Senhora da Penha, a Senhora das Alegrias, tornou-se feriado estadual desde o ano de 2019, assim o Campinho do Convento pode tornar-se a grande casa de acolhimento da família de Deus, aonde todos podem se achegar, pode tornar-se sede de alegria e lugar aonde o povo sedento de vida boa pode beber esperança. 





 

terça-feira, março 28, 2023

TEXTO: Somos todos vocacionados


Aponto três fatos que podem nos ajudar a refletir sobre a vocação no seu sentido amplo, como chamado de Deus a cada batizado a cumprir uma missão no meio do mundo, e no sentido específico das vocações aos ministérios ordenados e a vida consagrada.

Estamos em pleno o terceiro Ano Vocacional da Igreja no Brasil, existe toda uma programação nacional para fomentar uma cultura vocacional que seja capaz de auxiliar os jovens fiéis no discernimento das diversas vocações, bem como seja capaz de fomentar e promover as vocações específicas para o ministério ordenado ou para vida consagrada e religiosa.  O tema do Ano Vocacional é o seguinte: “Vocação: Graça e Missão”. É imprescindível auxiliar nossos jovens no discernimento vocacional para que possam tomar decisões mais livres e conscientes sobre o destino de suas vidas. Numa sociedade tão atordoada com tantos estímulos, crises e oportunidades, à luz da fé cabe a Igreja auxiliar  seus fiéis num caminho de discernimento vocacional. Todos os batizados são vocacionados, ou seja, chamados por Deus para uma grande e bela missão, e neste contexto é Deus quem ainda hoje continua a chamar alguns homens e mulheres para consagrarem-se integralmente ao serviço da proclamação da Boa Nova do Evangelho. Deus continua a chamar, no entanto, como fazer para auxiliar os nossos jovens a serem sensíveis aos apelos divinos? Como fomentar uma cultura vocacional que ajude as pessoas a descobrirem em suas vocações o sentido da vida? Como responder livremente ao chamado de Deus e a seu projeto de amor para cada um de nós?  

Segundo dados do Anuário Católico 2023, que analisa os dados do ano precedente, o número de católicos no mundo teve um aumento de 1,3%, totalizando 1,37 bilhão de fiéis. Já o número de ministros ordenados teve uma diminuição de 0,57% no ano de 2022. O ministério ordenado se direciona ao serviço do ministério comum dos fiéis, ou seja, o ministério ordenado existe para o serviço do ministério comum. O que será que os dados do Anuário Católico podem nos ajudar a refletir sobre os ministérios na Igreja? Será que estamos vivendo uma crise dos ministérios ordenados? Como podemos promover a missão e os ministérios dos cristãos leigos e leigas?

No fim de semana passado, participei de uma ordenação presbiteral, um jovem cheio de potencial e contando com a vitalidade dos seus 28 anos de idade. Era bonito ver no rosto do jovem a alegria em assumir a missão de servidor do Evangelho, o sorriso no rosto expressava a confiança na entrega de sua vida como um dom agradável a Deus e aos irmãos. Têm sido uma preocupação no Brasil, imagino que também em outros países, o perfil dos padres novos, no entanto é preciso pensar também no perfil da comunidade eclesial que gera estes perfis de padres, e é justamente o que será assunto do próximo livro do pesquisador e teólogo Agenor Brighenti que em 2021 escreveu a obra “O novo rosto do clero: perfil dos padres novos no Brasil”. Jesus de Nazaré, o Bom Pastor, é modelo para nossos ministros ordenados? Que tipo de padres nós sonhamos para nosso povo? Que tipo de consagrados e religiosas nós queremos entre nós?

Penso que para as questões aqui elencadas não temos respostas para algumas delas, para outras não temos uma única resposta, mas é importante admitirmos estas realidades para caminhar com os pés no chão assumindo as contradições e incoerências do caminho e ao mesmo tempo sem perder a esperança que brota da confiança em Deus que sempre nos acompanha. Enfim, que em cada padre, em cada religioso (a), em cada consagrado (a) o povo de Deus possa encontrar um reflexo de Jesus Cristo vivo e presente no meio do mundo.

Acesse: <https://anovocacional.cnbb.org.br/>


quarta-feira, março 08, 2023

CRÔNICA: Jesus fala com a mulher (Jo 4, 27)

 

Neste dia Internacional da Mulher, comemorado desde 1911, nos perguntamos o que temos para celebrar? Percebemos avanços na conscientização da igualdade de gênero, mas ao mesmo tempo percebemos o quanto ainda precisamos caminhar ativamente para vencer as desigualdades e violências a que são submetidas as mulheres simplesmente por serem mulheres.   

Deus ama as meninas e as mulheres?

Lendo uma teólogo francesa chamada Anne Soupa, em sua obra “Deus ama as mulheres?” podemos ler: “A mulher que Deus cria é amada por quem ela é, sem que Deus lhe designe um lugar predeterminado, nem papel específico” (SOUPA, p. 113). Anne como militante da causa feminina defende a irracionalidade de legitimar religiosamente e biblicamente a superioridade de um gênero sobre outro e nos aponta a igual dignidade com que Deus criou o homem e a mulher. A referida autora ainda afirma que na Igreja a questão da mulher ainda não está resolvida, as mulheres são como formiguinhas que trabalham silenciosamente, mas que ainda precisam ocupar seus lugares de direito nas instâncias de decisão e de governo da Igreja, para tal propõe que é necessário um “Sínodo das Mulheres”.

O Brasil ama as meninas e as mulheres?

A jovem atriz Klara Castanho se tornou símbolo da mulher violentada, da violência contra as grávidas, e trouxe à tona a sórdida culpabilização das vítimas, que cala tantas mulheres agredidas em sua dignidade. Uma mulher foi agredida com um carinho de supermercado em Santo Antônio do Descoberto, cidade de Goiás, e o homem foi acusado simplesmente de lesão corporal leve pelo delegado responsável pelo caso. Outra mulher foi agredida recentemente pelo ex namorado num posto de combustíveis, em Londrina. Dados de uma pesquisa sobre violência de gênero revelam que no ano passado 35 mulheres foram agredidas a cada minuto no Brasil (Fórum Brasileiro de Segurança Pública). O feminicídio em nosso País bateu o triste recorde de 699 mortes em 2023, uma média de quatro mulheres assassinadas diariamente. Entre as mulheres negras e pouco escolarizadas a violência é ainda maior, no entanto, permanece velada como reflexo de uma sociedade forjada sobre a escravidão negra onde os corpos negros não passavam de mercadoria.

Cadê as leis?

Temos a Lei Maria da Penha que em si mesma é um recurso muito válido no combate a violência contra a mulher, mas que ainda precisa ser melhor aplicada, quantos são os relatos de mulheres que mesmo acionando a Justiça não se sentem protegidas e amparadas. Esperamos, para a data de hoje, a apresentação de um texto com um projeto de Lei para igualar o salário de mulheres e homens que exercem a mesma função. Que a Justiça seja promotora do combate a histórica desigualdade de gênero.

Esperançar com as meninas e mulheres.

Está é uma causa que diz respeito a homens e mulheres, que se reconhecem nas suas diferenças, que se respeitam, que querem a construção de um mundo melhor onde reine a justiça, a paz, o amor. Que a voz, das meninas e das mulheres, possa se erguer num grito de protesto contra toda violação de sua dignidade e de seus direitos. Nosso Senhor Jesus Cristo se fez amigo das mulheres, escutava, acolhia, não tinha medo das mulheres... Sim, é preciso dizer o óbvio, Deus ama as meninas e as mulheres.


Pelo direito à felicidade de nossas meninas e mulheres. 


Campanha da Fraternidade 2026: Tanta gente sem casa e tanta casa sem gente

  O tema da Campanha da Fraternidade 2026 é Fraternidade e Moradia, e lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1, 14). Trata-se antes de tudo do ...