sexta-feira, outubro 03, 2014

TEXTO: Dimensão ministerial da missão

Mês Missionário

Com o intuito de refletir sobre a temática missionária publicaremos uma compilação sobre o assunto. Que Santa Teresinha e São Francisco Xavier intercedam para que sejamos autênticos discípulos missionários!

Dimensão ministerial da missão


A missão por natureza se faz fora de casa, é um constante processo de desinstalação, de ir além, naqueles lugares onde o Evangelho não foi pregado ou não é vivido. O documento Ad Gentes, do Concílio Vaticano II, ainda depois de cinquenta anos nos interpela: "A Igreja peregrina é, por sua natureza, missionária, visto que tem sua origem, segundo o desígnio de Deus Pai, na missão do Filho e do Espírito Santo." (AG 2, LG 1) Um colega seminarista me disse: "Se eu não for missionário eu não sou Igreja ". E é justamente isso, a Igreja nasce do coração missionário do Cristo, nisso consiste a fidelidade ao mandato de Jesus Cristo: "Ide, pois; de todas as nações fazei discípulos, batizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-as a guardar tudo o que vos ordenei"(Mt 28, 19-20). Os discípulos missionários devem considerar que os interlocutores da Palavra de Deus, são todos sujeitos, e não somente destinatários. "A Nova Evangelização deve implicar um novo protagonismo de cada um dos batizados"(EG 120).

No chamado de Jesus a missão é a escola de formação, ao atender o chamado e na proximidade com o mestre o discípulo missionário se forma. "Constituiu os doze para estarem com ele e para os enviar a pregar" (Mc 3, 14), só estando cheio da Boa Nova o discípulo missionário pode ir e anunciar, é preciso um encontro não com uma ideia, mas com uma pessoa concreta que é Jesus, nos relembrou o Documento de Aparecida: "O discípulo experimenta que a vinculação íntima com Jesus no grupo dos seus é participação da vida saída das entranhas do Pai, é formar-se para assumir seu estilo de vida e suas motivações (Lc 6, 40b), seguir sua mesma sorte e assumir sua missão de fazer novas todas as coisas". (Dap. 131). Para isso é preciso estar encantado por Jesus Cristo, quem se encanta permanece e proclama cheio de alegria: "Encontramos o Messias"(Jo 1, 41); o que esta desencantado vai embora.

O discípulo missionário é o praticante da Palavra segundo São Mateus, é o humilde aprendiz, o centro da missão é discipulado (Mt 28, 16-20). A Palavra de Deus é um evento comunicativo que abarca duas dimensões: 1) dialógica (Deus e o homem), 2) performativo (conformar-se com a Palavra), ambas dimensões são resultado do Vaticano II. A Verbum Domini fala que não somos uma religião do livro, mas da Palavra de Deus, da pessoa de Jesus Cristo que é o Verbo encarnado. Toda a nossa preocupação, todos os nossos esforços devem nos lançar a uma experiência com Jesus Cristo, só assim se pode ser decididamente discípulos missionários. "A Palavra de Deus é Sacramento" (VD 21), é lugar privilegiado do encontro pessoal com Jesus. A Samaritana, logo que terminou o seu diálogo com Jesus, tornou-se missionária, e muitos samaritanos acreditaram em Jesus "por causa das palavras da mulher"(Jo 4, 39)(EG 120). Aquela mulher samaritana que foi buscar água no poço ( tradição), água parada, recebe água fresca da fonte (Jesus, Nova Lei) que jorra incessantemente para toda humanidade (Jo 4, 5-39).

Neste contexto, citemos o teólogo norte americano Christopher J. H. Wright: "Não é a Igreja que tem uma missão, é a missão que tem uma Igreja". Da missão brota a Igreja como amorosa resposta ao mandado  de Jesus de ir a toda criatura (Mt 28, 19). O missionário é aquele que se dispõe a ser acolhido pelo outro, que é sempre hóspede na casa que se dispõe a recebê-lo. Dizia São Bernardo: "Seguir Jesus é como escalar uma montanha". O caminho se faz numa subida do discípulo até o topo onde está a universalidade (Deus), e na descida para ser discípulo missionário que vai ao encontro do outro, que na proximidade e no diálogo faz do outro um novo discípulo missionário encantado por Jesus. Este esquema é chamado o DNA do missionário.

O missionário precisa saber discernir quais são as urgências da missão, pois nem tudo que a Igreja faz é missão. Então, podemos nos perguntar sobre: quais são os critérios da missão? A Igreja antes do Vaticano II se sentia remetente da missão, aquela que envia, na mudança de paradigma, numa virada copernicana, a Igreja também se entende como enviada. Passamos da compreensão da missão enquanto expansão da Igreja, para uma Igreja missionária, toda ela ministerial, onde cada cristão deve se ser protagonista da Evangelização. O Papa Francisco, na exortação apostólica A Alegria do Evangelho, exclama que prefere uma Igreja em saída, machucada, que seja capaz de ir as periferias, que não tenha medo de se enlamear.

Para nossa missão podemos elencar três âmbitos diferentes a serem atingidos:1) a pastoral - Toda paróquia tem território de missão: a secretária, os idosos, os noivos, os ministros, os namorados, etc. 2) a Nova Evangelização - lembramos aqui das pessoas batizadas que, porém, não vivem as exigências do Batismo, não sentem uma pertença cordial à Igreja, e já não experimentam a consolação da fé (EG 14) 3) a missão Ad Gentes - à proclamação do Evangelho àqueles que não conhecem Jesus Cristo ou que sempre O recusaram (EG 14).

Somos acostumados a uma formação presbiteral que usa a figura do Bom Pastor - aquele que controla, cuida, sabe o nome de suas ovelhas (redil de possibilidades), do Semeador - que em qualquer ambiente sai a semear e sabe que a semente é boa (campo de possibilidades); são belíssimas tais figuras ao se referir ao presbítero, mas é hora de incluirmos aí a figura do pescador - que sai da segurança das margens, que fica perdido no mar, que não confia em suas forças, que lança a rede (mar de possibilidades). Sejamos discípulos missionários pescadores, que tem coragem de arriscar a vida por um grande propósito.

"Não dá para ordenar presbíteros que não sejam missionários" padre Jaime Patias. E ainda, uma pergunta que me marcou a alma: "No julgamento final, quando estivermos cara a cara com Deus, Ele vai nos perguntar: O que você fez da sua vida? Você se preocupou com os 75% do mundo que não conhece Jesus Cristo?", palavras de padre Sávio, missionário Xaveriano.
05 de julho de 2014, Brasília - DF.
Para refletir:
1) O que me diz o texto bíblico: Mc 3, 14?
2) O que posso fazer para melhorar meu discipulado missionário?

Legenda
AD - Ad Gentes.
Dap - Documento de Aparecida.
EG - Evangelii Gaudium.
LG - Lumen Gentium.
VD - Verbum Domini.

segunda-feira, junho 09, 2014

CRÔNICA: O lugar do ancião em nossa sociedade


Extremos da sociedade.
Faz alguns dias que venho pensando sobre a melhor maneira de ajudar o outro, de forma a não oprimir e humilhar ainda mais quem de mim necessita. Pode até parecer presunção, no entanto, se abrirmos bem os olhos percebemos quantas pessoas podemos ajudar, e isso, desde um simples sorriso àquele alguém que você encontra em seu caminho. Não devemos nos aproximar seja de quem for de qualquer maneira, antes de tudo é preciso colocar-se no mesmo nível que o outro, isso é tornar-se próximo.

Em minha visita mensal ao Asilo de Vitória, alguém me pergunta: "Você esta lembrado de mim?" Surpreso mal pude pensar de quem se tratava, a tentação foi pensar que a simpática senhora havia me confundido com alguém, então me aproximei e disse que não me lembrava do nome, mas de sua fisionomia sim. "Você disse que não esqueceria meu nome. Me chamo Irene e você Irineu". Naquele momento senti em meu coração o ressoar das palavras de uma tal raposa a um pequeno príncipe: "Tu te tornas eternamente responsável pelo que cativas". Quantas pessoas visitaram aquela mulher desde minha última visita, mas para ela eu me tornei o Irineu, não um visitante como os outros.

Ir ao asilo, me faz refletir sobre a vida, questões existenciais se levantam, e eu busco perscrutar o que há de bom nisso. São instantes junto a anciãos que com extremada vontade de falar, expressam a sabedoria adquirida com os anos de sobrevivência. O que faço por eles é quase nada, vou ouvir, estar próximo, dar um afago naqueles que me permitem. Já eles sem saber me ajudam a viver melhor, me humanizam, me ensinam que a vida não é eterna, que tudo passa, que o corpo se deteriora em vida, que a beleza exterior não passa de uma futilidade, que viver exige intensidade, que a vida pode ser bela mesmo quando estamos doentes e  longe dos familiares, que a morte pode ser um grande tormento ou simplesmente um partir para o além mar...

Houve um tempo em que os cabelos brancos significavam sabedoria, que a fisionomia marcada pelo tempo dava autoridade e reclamava um respeito quase que automático. Hoje o idoso é visto como um improdutivo, no máximo um consumidor de inflacionados planos de saúde, de remédios, de viagens para terceira idade, etc. O velho em nossa sociedade frenética pela novidade, não tem espaço, é o ser humano ultrapassado que não dá conta de acompanhar o acelerado ritmo das mudanças da sociedade.






Sem a valorização dos extremos da sociedade, infância e velhice, em breve nos tornaremos uma sociedade ainda mais doente, esquecida de sua história e sem perspectivas de futuro promissor. Cada vez mais as crianças querem ser chamadas de jovens, idosos reivindicam o título de jovem de espírito, como se a vida humana não fosse constituída de estágios. Aos amigos o augúrio, seja qual for seu estágio de vida: Carpe diem

Aproveite o hoje.



segunda-feira, abril 28, 2014

CRÔNICA: SENHORA DAS ALEGRIAS

Festa de Nossa Senhora da Penha, padroeira do Estado do Espírito Santo.


Acordei com vontade de escrever sobre a Festa da Penha, padroeira deste Estado, Mãe de tantos  capixabas desvalidos e pequeninos. Quanta alegria e fé da  multidão de peregrinos que rumam à Casa da Mãe numa analogia à caminhada perene de suas vidas rumo a Pátria Celeste. As romarias são as mais variadas, a maior de todas é a Romaria dos Homens, que já se configurou como a Romaria da Família. Faz alguns anos optei por participar da Romaria dos Homens, estar junto de todos os peregrinos é experimentar no aqui e agora o que teremos  em plenitude no futuro escatológico, onde viveremos em plena comunhão unidos no amor.

Diante de massivas manifestações de fé e religiosidade popular, me questiono sobre a realidade da vida do povo espírito santense, quantas dificuldades e tristes realidades enfrentamos. Será que todo este povo católico não testemunha sua fé? Por que somos uma das capitais mais violentas do mundo? E a conclusão que chego  enquanto cristão católico é de que o povo vive sim sua fé, embora nem todos sejam exímios praticantes do Evangelho, é grande o número daqueles testemunham sua fé na vida.

No entanto, não bastam fé e boa vontade do povo, são necessárias políticas públicas verdadeiramente comprometidas com o bem comum, capazes de transformar para melhor a vida dos desvalidos Filhos da Virgem. O povo busca agarrar-se a sua Santa Mãe porque já não sabe a quem recorrer. A violência, o sofrimento para levar uma vida digna e honesta é tamanho que o povo vive a espera de um milagre que mude a realidade de nosso amado Estado.


Prometo  me deter a escrever sobre os sinais de politicagem em nosso Estado, mas agora não o farei. Quero neste instante me deliciar do avivamento que a Igreja está vivendo, a eleição do Papa Francisco não deixa dúvida sobre a ação divina em nosso meio.  Ontem foram canonizados dois grandes homens para história da humanidade. João XXIII, aquele que abriu a Igreja aos novos tempos; João Paulo II, o papa peregrino que aproximou a Igreja dos povos. Por tudo isso, damos graças ao bom Deus e clamamos  forças para juntos construirmos uma sociedade capixaba menos violenta e injusta.

segunda-feira, março 17, 2014

CRÔNICA: Prece

O canto sacro que sai da capela nos interpela.
A voz reverbera a santidade dos presentes, que unidos em uníssono louvam ao Criador.
 O perfume do incenso  aguça os sentidos fazendo experimentar os divinos sabores.
No cair da brumosa tarde a prece sugere que o Todo Poderoso não abandone os orantes quando  na noite nada se puder  ver.
A certeza da aurora nos coloca na esperança do raiar das possibilidades.
Novamente por pura graça é dia.

A reza se refaz laudes no bater rotineiro da vida.

domingo, fevereiro 09, 2014

CRÔNICA: MARABÁ I: A volta...


O que dizer?

Retornando das terras do norte deste País continental, convenço-me de quão imenso é o nosso Brasil varonil. Mas, o que dizer do que lá vi? Como foi nossa missão?

Com a finalidade de sermos cada vez mais discípulos  missionários, segundo os ventos de Aparecida, estivemos eu e mais cinco companheiros no Pará. Exatamente estivemos visitando a Diocese de Marabá, alguns de seus distritos e municípios, nos irmanando pelo antigo Projeto da CNBB Igreja Irmãs.

Antes de tudo quero ressaltar a acolhida fraterna e disponibilidade do povo deste lugar, que desde o início se mostraram muito disponíveis para nos receber. O calor proveniente do clima tropical semi-úmido bem representa o afeto dos paraenses. Esperava encontrar em Marabá uma cidade pequena, me admirei ao constatar que se trata de uma grande cidade.

Um verdadeiro caldeirão de etnias é Marabá, "Filho da Mistura", fruto da união de gente diversa proveniente das mais variadas localidades. Gente que foi parar lá, atraído por sonhos movidos pelos mais diferentes combustíveis: comércio, extrativismo, seringa, madeira, minério de ferro, ouro...


Me pediram que desse um parecer sobre o povo, disse que tudo o que dissesse seria limitado diante da grandiosidade daquela gente, mas ousei dizer: Vocês são o povo da esperança, que caminha a mais de cem anos em busca da "Terra prometida". Vocês são um povo de sonhos, sonhos dourados e febris, sonhos de vida melhor e digna. Vocês são o povo de luta e sofrimentos, que na peleja já conheceram massacres sangrentos cujo sangue dos sem número de mártires ainda pulsa por justiça. Vocês são um povo abençoado por natureza, com seus imensos rios navegáveis, com seu minérios valiosos, com suas fantásticas e ricas florestas. Vocês são uma das faces desta nação brasileira.

segunda-feira, janeiro 13, 2014

CRÔNICA: VIOLÊNCIA AO LADO


Quisera eu começar este ano escrevendo sobre bons auspícios, sobre expectativas e coisas belas que espero que se tornem realidade nos dias vindouros. Mas, no palco da vida estamos todos nós sem o script. Férias em meu vocabulário têm sinônimo de estar em família, foi o que justamente estava fazendo sábado passado, família reunida em casa numa tarde de calor forte. Preparando-nos para festejar de forma muito singela a natividade de um primo, a contra gosto tive que ir as compras num supermercado acompanhado de minha turminha. Ao retornar, adentrei a garagem com o veículo e dei o comando para fechar o portão que nos dá a suposta sensação de segurança.

Quando ainda retirávamos os mantimentos do carro, fomos surpreendidos por cinco estampidos bem próximos de nossa casa. Um silêncio instantâneo e sombrio, seguido de pânico e correria na busca de refúgio seguro. Num instante aquela pacata rua de bairro periférico viu-se desértica, até o momento em que uma senhora saiu a rua desorientada pelo desespero dizendo coisas aleatórias no ritmo da dor.   

Pouco a pouco, a rua voltou a ser povoada por moradores e uma imensidão de curiosos das redondezas. Da mesma forma íamos identificando o que ocorrera, um assassinato à queima roupa; do vizinho que conhecíamos só de vista, com tiros na cabeça sua morte foi quase instantânea.

A rua que recebe o nome do homem da paz, o papa Luis Clemente, foi atingida brutalmente pela violência contra um de seus moradores. O dito cujo assassinado dizem o povo que não era uma "boa bisca".  O que vi foi um homem sendo assassinado na sua casa, na frente de seus entes queridos. Quando a violência sai dos noticiários dos jornais e vêm ao nosso encontro na vida real, percebemos que a violência é um problema grave ao qual todos nós estamos à mercê.

Não podemos fechar os olhos e esperar de braços cruzados para sabermos quem será a próxima vítima. Não basta recorrer apenas as orações, todo tumulto na rua e uma pequena igreja protestante continuou com seu culto com o acalorado discurso de seu pastor que se fazia ouvir à distancia. Uma prova clara e evidente de como muitos têm levado uma vida de fé desconexa da realidade, o importante é não parar o discurso alienante de um Reino de Deus que deste jeito nunca será construído.

Nos vemos tão impotentes! Mas, não deve ser assim, podemos agir dentro de nossos ambientes como promotores da paz, devemos não ser indiferentes ao outro humano que sofre ao nosso lado, somos responsáveis por cobrar de nossas autoridades constituídas providências. A comemoração do aniversário de meu primo se restringiu a um jantar silencioso, que estas tristes surpresas nos ensinem a estar de olhos abertos para enxergar a realidade como ela é. 

Campanha da Fraternidade 2026: Tanta gente sem casa e tanta casa sem gente

  O tema da Campanha da Fraternidade 2026 é Fraternidade e Moradia, e lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1, 14). Trata-se antes de tudo do ...