Passando um dia desses pelas
ruas da cidade encontrei um pezinho de boldo chinês brotando numa rachadura de
uma calçada, numa rua de asfalto, se exibia vitorioso demonstrando sua
vitalidade em meio àquele ambiente aparentemente inóspito a sua presença. Aquela
erva me despertou várias memórias afetivas. A primeira memória foi de minha avó
que usava o chá de boldo para aliviar seus constantes problemas de estômago,
dizia ela convencida ao tomar o chá de sabor extremamente amargo: “Boldo é o
melhor remédio para o estômago”.
Me recordei ainda de
quando fui visitar uma amiga, mulher muito feminina e sensível, já amadurecida
pelos anos, no entanto cheia da beleza daqueles que assumem sua idade nas
marcas do rosto, na cor do cabelo, na profundidade do olhar. Na casa de minha amiga
tantos detalhes, tantas cores nas paredes e nos quadros, quantos bibelôs e porta-retratos
cheios de memória, filtro dos sonhos, imagens de santos e da Virgem Maria, dois
gatos rechonchudos, e por todo lado muitas plantas e ervas medicinais, numa
composição mística e reveladora da personalidade de sua moradora. Curioso eu
comecei a perguntar sobre as diversas ervas que haviam ali, e ela como mulher
ligada à terra afirmou que as ervas estão em todo lugar, discretas e generosas
para nos oferecer seus sabores e curas, basta educar nosso olhar e as
descobriremos entre nós. As ervas que no passado curavam e ofereciam alívio a
tantas doenças, mesmo suplantadas pela poderosa indústria farmacêutica que
vicia e explora, insistem em brotar entre as gretas de nossas cidades que se
tornaram selvas de pedra aonde nem a água da chuva consegue penetrar nas
profundezas da terra. Aquela amiga “bruxa”, “curandeira”, “farmacêutica” me
falou sobre o poder dos chás no cuidado com nosso corpo.
Outra memória que aquele
pezinho de boldo me trouxe foi da vivência de fé de várias comunidades católicas da
grande Belo Horizonte, é costume em algumas igrejas após a Missa que é o Remédio
dos Remédios oferecer um chazinho quente para todos os fiéis, seja de cidreira,
alfavaca, hortelão, etc; e ali o povo fica convivendo prolongando a Eucaristia
com mais um momento sacramental que brota da espontaneidade e sabedoria da vida
do povo de Deus. O chazinho depois da Missa é servido a todos, ninguém fica de
fora, mesmo aqueles que não podem se aproximar da Eucaristia, que é o ápice de
nossa fé. Revelando que os chás também podem gerar comunhão e curar corações.
Minha velha avó tinha
razão em dizer que chá de boldo é bom para o estômago, mas talvez ela nunca
tenha refletido que é bom também para despertar memórias. Minha velha avó,
minha amiga bruxa, e a comunidade de fé descobriram o valor e o poder das ervas
que estão muito além dos seus efeitos bioquímicos.



