Quisera eu começar este ano
escrevendo sobre bons auspícios, sobre expectativas e coisas belas que espero
que se tornem realidade nos dias vindouros. Mas, no palco da vida estamos todos
nós sem o script. Férias em meu vocabulário têm sinônimo de estar em família,
foi o que justamente estava fazendo sábado passado, família reunida em casa
numa tarde de calor forte. Preparando-nos para festejar de forma muito singela
a natividade de um primo, a contra gosto tive que ir as compras num supermercado
acompanhado de minha turminha. Ao retornar, adentrei a garagem com o veículo e
dei o comando para fechar o portão que nos dá a suposta sensação de segurança.
Quando ainda retirávamos os
mantimentos do carro, fomos surpreendidos por cinco estampidos bem próximos de
nossa casa. Um silêncio instantâneo e sombrio, seguido de pânico e correria na
busca de refúgio seguro. Num instante aquela pacata rua de bairro periférico
viu-se desértica, até o momento em que uma senhora saiu a rua desorientada pelo
desespero dizendo coisas aleatórias no ritmo da dor.
Pouco a pouco, a rua voltou a ser
povoada por moradores e uma imensidão de curiosos das redondezas. Da mesma
forma íamos identificando o que ocorrera, um assassinato à queima roupa; do
vizinho que conhecíamos só de vista, com tiros na cabeça sua morte foi quase
instantânea.
A rua que recebe o nome do homem da
paz, o papa Luis Clemente, foi atingida brutalmente pela violência contra um de
seus moradores. O dito cujo assassinado dizem o povo que não era uma "boa
bisca". O que vi foi um homem sendo
assassinado na sua casa, na frente de seus entes queridos. Quando a violência
sai dos noticiários dos jornais e vêm ao nosso encontro na vida real,
percebemos que a violência é um problema grave ao qual todos nós estamos à
mercê.
Não podemos fechar os olhos e esperar
de braços cruzados para sabermos quem será a próxima vítima. Não basta recorrer
apenas as orações, todo tumulto na rua e uma pequena igreja protestante
continuou com seu culto com o acalorado discurso de seu pastor que se fazia
ouvir à distancia. Uma prova clara e evidente de como muitos têm levado uma
vida de fé desconexa da realidade, o importante é não parar o discurso
alienante de um Reino de Deus que deste jeito nunca será construído.
Nos vemos tão impotentes! Mas, não
deve ser assim, podemos agir dentro de nossos ambientes como promotores da paz,
devemos não ser indiferentes ao outro humano que sofre ao nosso lado, somos
responsáveis por cobrar de nossas autoridades constituídas providências. A
comemoração do aniversário de meu primo se restringiu a um jantar silencioso,
que estas tristes surpresas nos ensinem a estar de olhos abertos para enxergar
a realidade como ela é.
