quarta-feira, janeiro 14, 2026

Campanha da Fraternidade 2026: Tanta gente sem casa e tanta casa sem gente

 

O tema da Campanha da Fraternidade 2026 é Fraternidade e Moradia, e lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1, 14). Trata-se antes de tudo do nosso corpo como nossa primeira morada, que precisa ocupar um local para conviver dignamente com os outros, este lugar digno se torna um lar, onde se experimentam as relações fundantes do ser humano (p. 77). Lutar para que todos tenham moradia digna faz parte da missão da Igreja, pois é uma questão de fé, de família, de ecologia, de política e de justiça. Com esta CF a Igreja conclama a toda sociedade a se sensibilizar de que o problema da moradia não é apenas um problema individual, mas social.

 

A tradição bíblica nos revela que Deus armou a sua tenda entre nós (Jo 1, 14). “Ele mora entre nós, mas especialmente entre os mais privados de direitos e dignidade, entre os que erigem seus lares sob os papelões e as cortinas surradas dos tempos de hoje” (p. 60). Um Deus que não é imparcial e que se põe do lado dos pobres e desvalidos desta terra. Desde o AT podemos acompanhar a sacralidade da terra e o desejo de Deus de que os homens não acumulassem terras alheias, mas esta tentação de acúmulo sempre esteve presente. Já no NT a casa ganha com a tradição paulina um sentido comunitário, sendo chamada em alguns momentos de Igreja Doméstica. O direito à moradia se relaciona a paternidade Divina, se Deus é pais de todos é preciso pensar na destinação universal dos bens, que nenhum filho ou filho seja excluído desta partilha.

 

No entanto, a realidade em que vivemos é bem diferente do querer de Deus. No Brasil, o déficit habitacional em 2022 era de mais de 6 milhões de domicílios, e o mais curioso, o número de domicílios vazios passou de 11,4 milhões, segundo dados da Fundação João Pinheiro (p. 39). Tanta gente sem casa e tanta casa sem gente (p.79). Daí vemos as ocupações acontecerem, pessoas que são especialistas em fazer habitáveis locais que não estão cumprindo seu papel social, pessoas que reivindicam um direito constitucional para que possam ter a dignidade de um endereço. O texto base de modo profético afirma: “Entender e apoiar as ocupações de áreas urbanas e prédios abandonados ou subutilizados, organizadas pelos movimentos sociais, como caminho e estratégia para pressionar o poder público, em vista da promoção do direito à moradia digna, da reforma urbana e do combate à desigualdade social” (p. 79-80).


Falar de moradia é algo bem complexo pois envolve a promoção do direito à cidade: “ o direito à saúde e à educação de qualidade, aos espaços culturais e de lazer, aos meios de transporte eficientes, à necessária universalização do saneamento básico e da justiça ambiental, à participação na condução da própria comunidade, cidade e país” (p. 78). Envolve também o enfrentamento de interesses contrários ao bem comum, como a “mão invisível” da especulação imobiliária, os despejos compulsórios, a arquitetura hostil, a falta de políticas públicas para habitação que superem os programas de governo, e outros tantos fatores. Envolve no fundo, o mínimo de sensibilidade humana para compreender que a rua não é casa de ninguém.

 

O tema da moradia já foi abordado em outras CF diretamente ou como tema transversal, permanece ainda como uma urgência nacional. No início do texto base, muitíssimo bem escrito, temos um vergonhoso Nihil obstat, a que ponto estamos chegando. Já as últimas palavras do texto base mereciam ser tema de um verdadeiro retiro para todos nós na quaresma: “Interceda por nós a Virgem Maria, e sua sagrada família, peregrina, refugiada, marginal e sem-teto” (p. 90).

 

Para refletir:

1.     Detenha-se por um templo contemplando o cartaz da CF 2026. Algo te toca?

2.     Você e sua família moram em casa própria? Se SIM, como você se solidariza com as famílias que não tem um teto? Se NÃO, como você sonha adquirir a casa própria de sua família?

3.     Reze com João 1, 14: “Ele veio morar entre nós”.

 

Referências:

CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Campanha da Fraternidade 2026: Texto-base. Brasília: Edições CNBB, 2025.

segunda-feira, janeiro 12, 2026

Crônica: Um pessimista esperançoso

 



Em certa conversa, com um determinado amigo, escutei: “Eu sou um pessimista esperançoso”. E daí em diante nossa conversa se desenrolou na tentativa de explicitar esta tese que de início me pareceu contraditória. Mas, tal reflexão vindo de quem vinha ficou guardada em minha memória.

 

Acabo de ler uma grande obra, não pelo se tamanho, mas pela importância da reflexão. A obra tem como título “Sociedade do cansaço”, do filósofo coerano Byung-Chul Han. O livro discorre sobre a passagem da sociedade disciplinar, marcada pela obediência e a coerção do não, para a sociedade do desempenho, marcada pelo sim e pelo excesso de positividade. Nesta nova sociedade emergente desaparece a alteridade, “que significa que vivemos numa época pobre de negatividades” (p. 14). O exagero da positividade na sociedade do desempenho coloca como nosso rival, que precisa ser superado a todo custo, o nosso próprio eu. Isso provoca uma séria de patologias como o burnout e a depressão, “o sujeito do desempenho encontra-se em guerra consigo mesmo” (p. 27). Nesta luta de se auto superar, concorrendo consigo mesmo, o sujeito mais cedo ou mais tarde sofre um colapso psíquico, um esgotamento, em última instância o sujeito do desempenho se realiza na morte, ao se autodestruir (p. 86). Daí uma explicação para o crescente número de suicídios em nosso tempo.

 

A referida obra apresenta as limitações da sociedade disciplinar e na passagem para a sociedade do desempenho, aponta que na transição se mudou a narrativa e se alteraram os papéis. No entanto, a dialética senhor e escravo continua vigente e com novas coerções, mas agora numa roupagem de suposta “liberdade”, senhor e escravo coabitam o mesmo sujeito. “Somos ao mesmo tempo prisioneiro e vigia, vítima e agressor. Assim, acabamos explorando a nós mesmos” (p. 45). Nos falta o tempo do nada fazer, do inútil, do não, para que tenhamos condições de ver, contemplar, meditar e daí pensar ou não pensar novos caminhos.

 

A sociedade do desempenho com seu excesso de positividade incute nas pessoas que “sim, nós podemos”, mas na realidade ninguém pode tudo. Para a sociedade do desempenho sempre há o que fazer, sempre há uma forma de se superar, até o ponto de sucumbirmos com nosso próprio eu. Diante de algumas situações simplesmente não teremos o que fazer, e isso pode parecer pessimismo, mas é justamente aí que está escondida a nossa salvação. Ah! Que bom ter amigos que pensam.

 

Anchieta (ES), 12 de janeiro de 2026.

Padre Irineu Claudino Sales

domingo, janeiro 11, 2026

Crônica: Reflexões na festa do Batismo do Senhor

 

 

Jesus Cristo quis ser batizado por João para manifestar a sua solidariedade para com todos os pecadores. Ele desce as águas para ser batizado e quando delas sai não está mais sozinho, vemos manifestar-se a Trindade Santíssima, o Espírito Santo se manifesta em forma de pomba, a voz do Pai se faz ouvir. Um batismo realizado para se cumprir toda a justiça, como lemos no evangelho segundo São Mateus (cf. Mt 3, 13-17).

 

Somos então levados a pensar sobre a dignidade batismal, é pelo batismo que um dia iremos contemplar o rosto de Deus. O saudoso papa Francisco dizia que seremos salvos não por ser padre, irmã de caridade, bispo, pai e mãe de família, seremos salvos pelo nosso batismo, que nos garante a dignidade de filhos e filhas de Deus. Nós somos filhos e filhas de Deus, que grande presente de amor o Pai nos deu, nos recordam as escrituras. Mas, o dizer da grande parcela humana que ainda não conhece Jesus Cristo, ou que ainda não recebeu o sacramento do batismo? Todos nós conhecemos alguma pessoa querida que ainda não foi batizada.

 

Diante da situação exposta somos impulsionados a missão permanente, a messe é grande do tamanho do mundo e ao mesmo tempo somos levados a contemplar os atributos da onipotência, onipresença e onisciência do nosso Deus; que tem seu jeito de se fazer presente e de salvar a seus filhos e filhas nas diferentes culturas, etnias e credos. Mas, ainda somos chamados a refletir sobre os milhões de batizados que ainda não foram suficientemente evangelizados e vivem apartados de Cristo. Um problema que já foi mencionado no Documento de Aparecida, em 2007, e que apresentava como solução o encontro pessoal com Jesus Cristo, dentre tantos meios, priorizando o testemunho autêntico dos cristãos e ao mesmo tempo uma boa iniciação a vida cristão por parte da catequese da Igreja.

 

Que possamos pedir a Deus a graça de vivermos a altura do nosso batismo e que mereçamos a graça de sermos chamados filhos e filhas de Deus.

 

Anchieta (ES), 11 de janeiro de 2026.

Padre Irineu Claudino Sales.

quarta-feira, novembro 05, 2025

CRÔNICA: Ele morreu sufocado na lama.

 

O sino tocou nota fúnebre na Catedral. Quem morreu? Alguém perguntou. Foi o Rio Doce que morreu, anuncia a Igreja Local de Colatina, que desde o rompimento da barragem, prometeu através do seu então bispo diocesano Dom Wladimir Lopes Dias que não se esqueceria, que não deixaria que a lama do esquecimento tomasse conta.

Era o dia 5 de novembro de 2015, aconteceu o rompimento da barragem em Mariana (MG), deixando 19 vítimas fatais e um prejuízo ambiental incalculável. Era, até então, a maior tragédia socioambiental do País. A Diocese de Colatina foi diretamente atingida nas cidades de Baixo Guandu, Colatina e Linhares. Falar de desastre parece falar de um desastre natural, no entanto, podemos até chamar de desastre, mas nunca pensar que foi natural, suas causas são facilmente identificáveis... Diante do desastre, ficamos sem saber qual rumo tomar. Mas, desde então, não medimos esforços no compromisso de não esquecer essa tragédia sem precedentes e suas graves consequências.

Foi criado o “Manifesto Unidos pelo Rio Doce”, uma iniciativa que manifestava nosso repúdio e exigência pela reparação dos danos causados. A Igreja não esqueceu e é uma voz que não se calará! Por isso, participamos nesta tarde de um manifesto ecumênico e novamente afirmamos: “Somos todos atingidos!”

Já se vão dez anos do rompimento da barragem de Fundão, o maior desastre ambiental do Brasil. Passados dez anos quem foi condenado? A Justiça Federal, em 2024, absolveu a Samarco, a Vale e a BHP. Condenado foi o povo, que não usa com tranquilidade a água de qualidade duvidosa; condenados foram a fauna e a flora do Rio Doce; condenados foram os ribeirinhos e povos originários que viviam em suas margens; condenados foram nossos descendentes que terão que lidar com os efeitos nocivos dos metais pesados que se encontram ao longo da calha do rio. No caminho de conversão ecológica precisamos aprender que o lucro não vale a vida! Que em meio a lama possa brotar a perfumada flor da esperança em dias melhores, que neste ano do Jubileu da Esperança possamos construir com as ferramentas de hoje um novo amanhã.



segunda-feira, dezembro 30, 2024

O método ver-julgar-agir: da Ação Católica à Teologia da Libertação. Obra de Agenor Brighenti.


 
RECENSÃO 

BRIGHENTI, Agenor. O método ver-julgar-agir: da Ação católica à Teologia da Libertação. Petrópolis, RJ: Vozes, 2022. 355 p., 23 X 16 cm.  ISBN 978-65-5713-679-8.

 

O autor (A.) da presente obra, Agenor Brighenti é presbítero da Diocese de Tubarão (SC), doutor em Teologia pela Universidade Católica de Louvaina (1993), Bélgica. Pastoralista e especialista em Teologia Latino-Americana e Teologia da Libertação. Ele apresenta as raízes do método ver-julgar-agir, de modo sistemático e fiel, a partir dos escritos do seu idealizador, o cardeal belga J. Cardijn (1882-1967), bem como demonstra a influência do método ver-julgar-agir desde a Ação Católica até a atualidade do pontificado do Papa Francisco.

 

A obra está estruturada em duas grandes unidades. Na primeira o A. se detém a desvendar, desde às raízes do pensamento do seu idealizador, o método ver-julgar-agir na Ação Católica. Na segunda temos uma investigação da influência do método ver-julgar-agir no Magistério da Igreja e especificamente um enfoque na teologia latino-americana. De modo introdutório, e mesmo como justificativa da presente obra, o A. afirma que vivemos na Igreja, com a eleição do Papa Francisco, “um novo cenário eclesial muito promissor” (p. 15). Depois de décadas de uma “involução eclesial” vemos claramente no pontificado do Papa Francisco o resgate do método ver-julgar-agir. O A. salienta que “Em momentos de travessia, como são os tempos de crise, ousar vislumbrar ‘o passo adiante’ implica a necessidade de dar ‘um passo atrás’” (p. 16).

 

A primeira unidade é composta de quatro capítulos. Já de saída o A. deixa claro o amor e a predileção de J. Cardijn pela juventude, “queria um movimento centrado sobre a educação dos jovens operários, independente das atividades capitaneadas por intelectuais ou pelos sindicatos de adultos, pouco sensíveis às necessidades e às aspirações dos jovens adolescentes” (p. 35).

 

No cap. 1, o ver-julgar-agir é configurado como o método próprio da Ação Católica, especificamente da Juventude Operária Católica (JOC). Para compreendermos como o método ver-julgar-agir teve origem é indispensável conhecer a personalidade e as etapas do pensamento de seu idealizador. Iniciando em 1912 com a chamada fase embrionária o pensamento de J. Cardijn pode ser dividido em nove fases de evolução. O A. teve acesso aos arquivos de Bruxelas e Louvaina onde se encontram bem preservados as centenas de escritos, comentários, palestras do inovador padre belga.

 

O A. mostra, no cap. 2, o momento do ver do método. Nesta etapa evidencia-se no pensamento de J. Cardijn o desejo de responder às seguintes questões: “ ‘por que’ conhecer a realidade? ‘Para que’ conhecê-la? Conhecê-la através ‘de quem’? E ‘como’ conhecê-la? ” (p. 56). O capítulo se estrutura com base nestas quatro perguntas que são analisadas de modo detalhado no pensamento do idealizador do método. Começando pelo ver a proposta da JOC é de uma nova pedagogia onde se “privilegia o processo em relação aos resultados” (p. 85). 

 

O cap. 3 contém uma abordagem do momento do julgar. A preocupação era ensinar os jovens a “iluminar”, julgar a realidade dos fatos constatados. No momento do julgar ganha grande importância o critério da verdade. “No pensando de J. Cardijn, ‘verdade’ não é uma doutrina, mas o plano de Deus, plasmado em diferentes lugares e mediações” (p. 101), este deve ser o critério iluminador do julgar. Sendo que na hierarquia das verdades é preciso considerar que a “dignidade humana é a verdade ‘fundamental, intangível, indestrutível e final’” (p. 104). Nesta parte da obra, o A. afirma que segundo J. Cardijn para formar juízo é preciso acesso a uma “doutrina segura” onde se insere com grande relevância a Doutrina Social da Igreja. 

 

No cap. 4 temos o momento do agir. A formação dos jovens operários tinha como prioridade o agir para formar, ou seja, “aprender a agir, agindo” (p. 128). O idealizador do método “entende por ação: ‘agir, organizar, mas sempre formar’” (p. 126). Para manifestar a independência da JOC em relação à desvios, sejam partidários políticos ou sindicalistas, insiste-se que suas ações devem ser “ações religiosas”. Na formação dos jovens operários, como “sujeitos de sua própria história” na transformação social, é importante notar que “a ação mais importante será sempre a ‘salvação pessoal’, a ‘revolução interior’, uma revolução ‘a partir de dentro’, o que equivale a formação” (p. 126-127).

 

Na sequência temos considerações finais sobre o ver-julgar-agir no pensamento e na obra de J. Cardijn. Nesta etapa os três momentos do método ver-julgar-agir, que até aqui foram apresentados de modo objetivo e individualizado, são postos em inter-relação. Sobre a evolução do pensamento do padre belga, que sempre insistiu na primazia da realidade da vida concreta e na formação pela ação, conclui-se que só em 1949, é que se abandona definitivamente o “primado da doutrina (tese)” (p.171) e o método se torna indutivo e dialético. Assim, termina a primeira unidade que por si só já comporia uma obra completa.

 

Na segunda unidade repete-se a composição em quatro capítulos. A proposta da unidade é apontar a influência do método ver-julgar-agir “no magistério da Igreja, na ação pastoral e na reflexão teológica” (p. 173). No cap. 5 temos uma reflexão sobre o caminho que o método percorreu desde a sua aprovação papal (Pio XI, em 1925) até os nossos dias, com a sua utilização na exortação apostólica Evangelii Gaudium do Papa Francisco. “O método, que havia sido assumido pela Ação Católica especializada no mundo inteiro desde a década de 1930, enfim três décadas depois, entraria no magistério da Igreja, através de João XXIII, concretamente, na Encíclica Mater et Magistra, publicada em 1961” (p. 179). Desde então, o método sempre esteve presente no Magistério, enfrentado resistências e se reinventando. O capítulo também aborda a influência do método no magistério da Igreja na América Latina.

 

No cap. 6 o A. reflete sobre a crise da Ação Católica quando esta decide romper com a Neocristandade: “os postulados da Ação Católica não desaparecerão, antes vão se diluir na nova atmosfera criada em torno ao Concílio Vaticano II, de reconciliação com o mundo moderno, de superação do eclesiocentrismo e da mentalidade de Cristandade” (p. 212).  Na pastoral, o método levou, na América Latina, a criação do planejamento participativo enquanto método indutivo, integrando “o espírito da renovação do Vaticano II e da tradição libertadora” (p. 212).

 

Sobre a Teologia da Libertação, abordando a influência do ver-julgar-agir no Magistério da Igreja na América Latina, cap. 7, podemos ler: “hoje se tem consciência que a epistemologia e o método da nova teologia, antes de serem assumidos pelo Concílio, tiveram sua origem no método ver-julgar-agir da JOC de J. Cardijn, alicerçado na racionalidade moderna, indutiva e histórica” (p. 237). O A. revela pontos que demonstram o desdobramento e ampliação do método da Ação Católica na Teologia da Libertação, um dos aspectos considerados é o critério hermenêutico de leitura da realidade que dos jovens operários se dilata a categoria dos pobres. “Para J. Cardijn, ‘um único jovem operário vale mais do que todo o ouro do mundo’” (p. 267).

 

No cap. 8 o método da Teologia da Libertação é apresentado como herdeiro do ver-julgar-agir. “A relação prática da Teologia da Libertação está em continuidade-descontinuidade com a Ação Católica. Em comum está a volta à ação. A descontinuidade, [...] está no fato da volta não ser somente dirigida para a práxis, mas de se dar também na práxis e se deixar criticar pela práxis” (p. 301-302). Na conclusão da obra o A. assevera a atualidade e pertinência do método ver-julgar-agir que “tornou-se um habitus tanto no procedimento dos agentes de pastoral como daqueles no campo da reflexão teológica” (p. 304). Nesta parte temos um elogio a J. Cardijn mencionado como “um apóstolo incansável da juventude”, que de modo decisivo colaborou com a “Igreja para sua passagem, ainda que tardia, da Cristandade à Modernidade, de uma racionalidade teológica dedutiva e a-histórica a uma racionalidade indutiva e contextual” (p. 306).

 

A obra está bem escrita e delimitada pelos títulos e subtítulos, que dão clareza e fluidez a leitura e a uma posterior consulta temática. Existe uma menção ao Papa Pio II, no entanto, penso se tratar de um engano e a referência real seria ao Papa Pio XII (p. 161). O A. ao apontar a influência do método ver-julgar-agir no Magistério da Igreja na América Latina menciona a Conferência de Puebla (1979) como a II Conferência (p. 193), não considera a I Conferência que ocorreu no Rio de Janeiro (1955).

 

A primeira unidade da obra assume um caráter documental histórico, fazendo um primoroso e literal resgate do pensamento de J. Cardijn, demonstrando isoladamente e depois relacionando cada momento do método ver-julgar-agir. A segunda unidade assume um caráter mais analítico e crítico, onde o autor se sente à vontade para expor sua reflexão sobre as influências herdadas do método próprio da Ação Católica sobre o Magistério da Igreja, a pastoral e a teologia. Nas duas unidades a presente obra explicita que o método ver-julgar-agir, que era próprio da Ação Católica, se tornou um método da Igreja, já que apesar do declínio da Ação Católica o método ver-julgar-agir continua vivo e presente na ação pastoral e na reflexão teológica atuais. O método é apresentado de modo sistemático nas palavras de seu idealizador, J. Cardijn, o que se caracteriza como diferencial e contribuição inédita da presente obra para reflexão teológica.

 

Na América Latina o jeito de ser Igreja está imbricado ao método ver-julgar-agir. Esta obra é indicada a todos aqueles que desejam romper com o conhecimento superficial do método ver-julgar-agir e conhecer sua influência em nosso agir pastoral. Neste tempo de preparação para o Sínodo, convocado pelo Papa Francisco, esta obra pode nos impulsionar a encontrar novas perspectivas para uma evangelização mais eficaz do homem e da mulher de nosso tempo.  

 

Irineu Claudino Sales[1]



[1] Presbítero da Diocese de Colatina (ES). Mestre em Teologia Sistemática pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE), membro do Grupo de Pesquisa Teologia e Pastoral. Bolsista da CAPES. E-mail: claudino.i.sales@gmail.com. Orcid: https://orcid.org/0000-0003-1077-9954.

quinta-feira, fevereiro 15, 2024

TEXTO: Campanha da Fraternidade 2024

 

Tema: Fraternidade e Amizade Social

Lema: “Vós sois todos irmãos e irmãs” (Mt 23, 8)

Iniciamos o tempo quaresmal e com ele somos convidados a fazer um grande retiro de cerca de quarenta dias. No retiro quaresmal somos impulsionados a um encontro consigo mesmo, com Deus e com os irmãos e irmãs. Somos auxiliados pelas práticas da esmola – nossa relação com os outros, da oração – nossa relação com Deus, do jejum – nossa relação conosco mesmos. Justamente em consonância com a proposta quaresmal de conversão a Igreja no Brasil sempre entendeu que a fé não pode estar desligada da vida. Já a Sacrossanctum Concilium afirma que “a penitência quaresmal não só interna e individual, mas também externa e social” (SC, n. 110). Nossa fé em Jesus Cristo Nosso Senhor deve nos impulsionar na transformação das realidades deste mundo que pouco revelam a proposta do Reino de Deus.

O último Censo 2022, divulgado no início de fevereiro, revelou que somos um País de muitas igrejas, mais do que hospitais e escolas somados. Constatamos que o Brasil é um país de muitas igrejas e de pouco testemunho cristão. Não pode ser compatível com a proposta de Jesus Cristo um país tão desigual, corrupto e excludente. Somos uma nação religiosa desde o tempo dos povos originários, e como tal a religião pode dar um grande contributo para o desenvolvimento humano do povo brasileiro. A religião não pode se omitir diante da sua responsabilidade social. 

A Campanha da Fraternidade completa neste ano de 2024 sessenta anos de história, nesta trajetória já se produziram muitos frutos bons não somente para os fiéis da Igreja Católica, mas para toda sociedade brasileira. Com o tema Fraternidade e Amizade Social a Campanha da Fraternidade 2024 tem como objetivo: Despertar para o valor e a beleza da fraternidade humana, promovendo e fortalecendo os vínculos da amizade social, para que, em Jesus Cristo, a paz seja realidade entre todas as pessoas e povos (CNBB, 2023, p. 7)

O que é a Amizade Social? O Papa Francisco nos responde por meio da Fratelli Tutti: “é o amor que ultrapassa as barreiras da geografia e do espaço, é uma fraternidade aberta” (FT, n. 1). “Amizade Social que não exclui ninguém e a fraternidade aberta a todos” (FT, n. 94). O texto base da Campanha da Fraternidade explica que “amizade não é um clube exclusivo, mas uma escola onde treinamos competências a serem universalmente aplicadas” (CNBB, 2023, n. 20).

Somos iluminados a cada Campanha da Fraternidade pela luz perene da Palavra de Deus, que é sempre Boa Notícia anunciada pela Igreja. Neste ano temos como versículo iluminador: “Vós sois todos irmãos e irmãs” (Mt 23, 8). Se vivenciarmos bem esta Campanha da Fraternidade 2024 poderemos colaborar na superação das polaridades políticas e ideológicas que ainda ferem os corações, dividem as famílias e amigos, matam o diálogo e a vida em nosso Brasil, dando passos em direção a almejada paz. É triste constatar que “poderíamos ser apenas diferentes, mas nós dividimos” (CNBB, 2023, n. 42), chegamos ao absurdo de desejar que os diferentes sejam exterminados (CNBB, 2023, n. 55), numa verdadeira “alterofobia” que é a aversão a tudo aquilo que é outro, tudo o que não sou eu mesmo (CNBB, 2023, n. 73).

Precisamos de uma verdadeira conversão, mudança de mentalidade, para vivermos uma “prática comprometida da solidariedade e de uma ativa compaixão” (CNBB, 2023, n. 37). É preciso partir do sonho de Deus para a humanidade que é a fraternidade, que tem como base o Reino de Deus que é para todos e todas. A proposta da Campanha da Fraternidade é que possamos sair de nós mesmos para ir ao encontro dos irmãos e irmãs (CNBB, 2023, n. 121), vencendo “o individualismo por uma vida de amor fraterno e de engajamento comunitário” (CNBB, 2023, n. 136). Participemos dos pequenos grupos de círculos bíblicos sobre a Campanha da Fraternidade 2024, abramos as portas de nossas casas e de nossos corações para receber esta proposta.  

Para refletir:

1.               O que Deus quer que eu faça em prol do meu irmão (ã)?

2.               Quais são as minhas intolerâncias? No que eu preciso me converter, mudar de mentalidade?

3.               De quem eu me afastei por questões de divergências ideológicas ou políticas? Como posso dialogar com esses irmãos e irmãs?

 

SIGLAS:

CNBB - Conferência Nacional dos Bispos do Brasil.

FT – Fratelli Tutti.

SC – Sacrossanctum Concilium.

 

REFERÊNCIAS:

BÍBLIA. A Bíblia Tradução Ecumênica. São Paulo: Loyola, 1996.

IBGE – INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA . Censo Brasileiro de 2022. Rio de Janeiro: IBGE, 2024.

CNBB - Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Campanha da Fraternidade 2024: Texto-Base. Brasília: Edições CNBB, 2023.

CONSTITUIÇÃO. Sacrossanctum Concilium. Documentos do Concílio Ecumênico Vaticano II. Paulus: São Paulo, 1997.

FRANCISCO, Papa. Carta Encíclica Fratelli Tutti: sobre a fraternidade e amizade social. Brasília: Edições CNBB, 2020.






quinta-feira, dezembro 28, 2023

CRÔNICA: Lá caminha a Virgem da Penha

Nestes dias em que o ano vai se esvaindo, como a areia escorrendo de uma ampulheta, estou tendo dias de descanso e a oportunidade de pensar na vida e revisar minha caminhada de fé. Subi em oração a montanha sagrada do Convento da Penha, e num dia atípico de neblina e temperatura amena ouvi o pregador da Missa dizer três características que nos apontam a sacralidade daquela montanha: o mar ao pé da colina recordando a imensidão dos desígnios de Deus; o rochedo do monte recordando que só Deus deve ser o fundamento de nossa vida; e a mata que protege a sacralidade do Convento nos recordando a harmonia que deve existir entre fé e ecologia e ao mesmo tempo a urgente conversão ecológica.

No alto do Convento, naquele lugar sagrado aonde caminha entre os seus devotos (as) a Virgem da Penha levando todos a encontrar seu sagrado Filho. Lá por mais de cinco séculos se pode experimentar o auxílio divino pelos pequenos, pelos pobres, pelos doentes, pelos necessitados, pelos excluídos, etc... É uma montanha que se tornou verdadeira casa de Mãe, aonde todos podem entrar e encontrar acolhida.

Ao descer as ladeiras do Convento da Penha contemplando a natureza exuberante e os famosos macaquinhos barulhentos, minha irmã de modo desinteressado fez menção agradecida a todos que desde os primórdios até os dias de hoje ajudaram e ajudam na construção e manutenção daquele espaço multiplamente sagrado. E curiosamente em visita à Casa de Memória de Vila Velha nos deparamos com um belo quadro de Luzia Grimaldi, personagem histórica que se tornou a primeira mulher a comandar uma capitania hereditária do Brasil Colônia. Luzia se tornou a capitoa do Espírito Santo de 1589-1593, devido a morte de seu marido Vasco Fernandes Coutinho Filho que morreu sem deixar herdeiros. A capitoa conduziu muito bem a capitania chegando a defendê-la de uma tentativa de invasão dos ingleses. Foi justamente Luzia Grimaldi que fez a doação em 1591 do terreno aonde seria construído o futuro Convento da Penha, a primeira mulher a governar o Espírito Santo estava convencida da sacralidade daquela montanha e dos benefícios que poderiam prover daquele lugar para todos os capixabas de fé.

A gratidão é a memória do coração, concordo com esta afirmação. Manifesto minha gratidão ao bom Deus que nos permite acesso a um lugar tão especial como o Convento da Penha, lugar aonde podemos caminhar com Maria e com Ela aprender as lições de Jesus. Mas manifesto também minha gratidão aos homens e mulheres de fé que nos precederam e que colaboraram de alguma forma para que o Convento da Penha continuasse e continue a ser um lugar especial de encontro consigo mesmo, com os outros, com a natureza e principalmente com Deus. E que nós possamos dar também nossa colaboração para que o Convento da Penha possa se perpetuar como um lugar que expressa aquilo que de melhor o nosso Estado tem para oferecer ao Brasil e ao mundo: o dom da fé.  

 




CRÔNICA: Fim de ano e as ansiedades: o remédio da fé cristã

No fim do ano a ansiedade aumenta em nossos corações, ouvi num telejornal que a ansiedade cresce em cerca de 75%, não me pergunte como se mede isso caro (a) leitor (a). No estrangular derradeiro do ano começamos a melancólica avaliação, uma análise das metas programadas, contabilização dos resultados obtidos, etc. Uma lógica de produção toma conta de nós, como se a produção fosse o único critério para sabermos se obtivemos ou não sucesso em nossas empreitadas.

A vida humana é muito mais complexa do que metas pré-fixadas. Graças à Deus estamos submetidos às surpresas da vida, as vezes promissoras e alegres ora desastrosas e tristes. Infelizmente os critérios do consumismo é que tem sido utilizados para afirmar uma vida feliz. Se você consome, você existe e é feliz. Se você não consome você é o único responsável pela sua má sorte de vida. Cruelmente afirma-se que qualquer pessoa pode ser o que quiser, basta querer. Mas que mentira cabeluda, afirmava uma canção popular.

Ao fim deste ano fico pensamento em quantos lugares pude visitar e conhecer; com quantas pessoas partilhei a vida; quanto conhecimento tive a oportunidade de obter ... De fato, foram muitas atividades e experiências de crescimento e humanização. Naturalmente chegamos nesta hora do ano com certo cansaço e exaustão, pois o tempo não para e nossas vidas estão cada vez mais aceleradas.

No meio deste turbilhão a fé cristã pode oferecer o desejado descanso e o remédio necessário para a avidez capitalista. É de Jesus Cristo a expressão: “Vinde a mim todos vós que estais cansados e fatigados sobre o peso dos vossos fardos que eu vos darei descanso, tomai sobre vós o meu julgo e aprendei de mim que sou manso e humilde de coração” (cf. Mt 11, 22-30). Com Jesus aprendemos uma lógica que vai na contramão da lógica do acúmulo e do consumo. Com o mestre Jesus aprendemos a lógica da simplicidade, do necessário, da humanização, do altruísmo, enfim a lógica do amor.

Infelizmente os homens e a mulheres de nosso tempo pensam que não precisam de Deus, talvez por isso o mundo está como está. Nós que temos a alegria de sermos abençoados com a presença de um Deus que se importa conosco e que se faz próximo, não podemos guardar esta alegria só para nós. O mundo tem sede de salvação, e esta salvação tem nome, é uma pessoa chamada Jesus Cristo. Caro (a) leitor (a) o tom religioso desta crônica visa suscitar esperança num mundo tão complexo e cheio de sombras, num mundo aonde já vivemos uma “terceira guerra mundial em pedaço” (expressão do papa Francisco). Que a fé se renove em nossos corações e que venha o próximo ano e que ele nos encontre lutando pela construção de um mundo melhor. 



 

sábado, novembro 04, 2023

CRÔNICA: No diálogo a plurivivacidade

Recordando o teólogo João Batista Libânio SJ. , grande intelectual brasileiro, vez por outra é bom nos questionarmos sobre a etimologia das palavras. De origem grega a palavra diálogo é composta de diá + logos, “através da Palavra”. O diálogo se dá no encontro entre duas ou mais pessoas, um encontro mediado pelas palavras. Como são poderosas as palavras na sua capacidade de desvelar os nossos pensamentos. Recentemente me frustrei com uma pessoa que considerava tão capacitada para o diálogo... E sei que o outro não tem culpa, culpa maior tenho eu, em colocar nos outros expectativas que são só minhas.

Suponho que no diálogo precisamos ter abertura para ouvir o outro que pensa diferente de mim, o diálogo verdadeiramente fecundo acontece entre pessoas que mesmo pensando diferente conseguem se aproximar e respeitosamente trocar conhecimentos. Certa vez ouvi: “Nunca aprendi nada de novo com aqueles que pensam igual a mim”.

Mas, quantas coisas entravam o desejo de boas conversas e diálogos fecundos de novidade. Entraves como o preconceito, o fundamentalismo, a intolerância, o racismo, o ressentimento, a violência, etc. No referido diálogo que tentei suscitar, percebi que minhas palavras não eram toleradas, que o meu lugar de fala enquanto homem religioso não estava sendo considerado. Num primeiro impulso veio o sentimento de raiva, de revolta e desejo de revanche. Um respiro profundo e então pude recobrar a racionalidade perdida por alguns instantes. Silêncio!

Decido então seguir e dialogar com aqueles que quiserem dialogar. Descubro que “ídolos” devem ser mantidos à distância, porque de perto, todos nós nos assemelhamos em nossas mazelas. E revestido do meu lugar de fala, recordo o que já dizia o livro bíblico de Jeremias: “Maldito o homem que confia no homem” (Jr 17, 5). Com estas palavras de desassossego, manifesto minha indignação e ao mesmo tempo reafirmo minha fé em cada homem e mulher que se coloca no caminho de aprender a dialogar. No diálogo podemos criar um mundo de plurivivacidade, no monólogo, que hipocritamente tenta se disfarçar em tons de diálogo, a vida se enrijece e definha. Na vida conjuguemos o verbo dialogar.



terça-feira, outubro 17, 2023

TEXTO: 7 pontos importantes da reflexão do 12º Encontro das CEB’s

 

12º Encontro das CEB’s do Espírito Santo – Regional Leste 3 – CNBB

Tema: “CEB’s: Igreja em saída na busca da vida plena para todos e todas”.

Lema: “Vejam! Eu vou criar um novo céu e uma nova terra” (Is 65, 17).

Data e local: 13 a 15 de outubro de 2023.

Local: Paróquia Divino Espírito Santo, Diocese de Colatina (ES).

Assessor teológico: Padre Benedito Ferraro.

Sigla: CEB's = Comunidades Eclesiais de Base


7 pontos importantes da reflexão do 12º Encontro das CEB’s

(Será lançada posteriormente uma síntese sobre os pontos discutidos durante o Encontro)

1. Formação integral/ continuada. Escolas de formação de qualidade. Criar Projeto de Pastoral para Diocese;

2. Identidade das CEBs. Papel protagônico. Opção pelos pobres.

3. O papel da mulher e seu lugar na Igreja.

4. A questão das Juventudes e seu protagonismo.

5. O afastamento das pastorais sociais. Articulação das pastorais sociais e políticas sociais.

6. Participação para enfrentar a crise ecológica. Laudato Si! Refletir sobre a diversidade de gênero.

7. Assembleia dos organismos do povo de Deus.

(Fonte: Vicente S. Falchetto)


TEXTO: Reverberando o 12º Encontro das CEB’s do Espírito Santo Regional Leste 3

 

12º Encontro das CEB’s do Espírito Santo – Regional Leste 3 – CNBB

Tema: “CEB’s: Igreja em saída na busca da vida plena para todos e todas”.

Lema: “Vejam! Eu vou criar um novo céu e uma nova terra” (Is 65, 17).

Data e local: 13 a 15 de outubro de 2023.

Local: Paróquia Divino Espírito Santo, Diocese de Colatina (ES).

Assessor teológico: Padre Benedito Ferraro.

Sigla: CEB's = Comunidades Eclesiais de Base

 

Reverberando o 12º Encontro das CEB’s do Espírito Santo Regional Leste 3

(O texto a seguir foi apresentado em parte na “Fila do Povo”, na tarde do dia 14 de outubro)

Eu Irineu Claudino Sales, padre jovem da Diocese de Colatina, filho da caminhada das CEB’s, aproveito a oportunidade para propor uma breve reflexão. Nosso querido Estado do Espírito Santo é marcado pela caminhada das CEB’s, aqui aconteceu em 1975 o primeiro Intereclesial das CEB’s. Apesar das correntes contrárias são milhares de CEB’s espalhadas em todo o território capixaba (exatamente são 3.494 CEB’s espalhadas em todo o Estado). No entanto, os tempos são outros, o contexto de mudança de época tem causado profundas transformações dentro e fora da Igreja.

Nossas CEB’s têm se tornado apenas “comunidades” onde se celebram os sacramentos. A mudança geográfica da população do campo para as periferias das grandes cidades não tem sido acompanhada, na mesma velocidade, pela implantação de novas CEB’s, fazendo com que o catolicismo esteja cada vez menos presente nas grandes periferias das cidades. Empolgado com 15º Intereclesial das Comunidades Eclesiais de Base, que aconteceu na Diocese de Rondonópolis, o sociólogo Pedro Ribeiro vislumbrou a 4º Geração das CEB’s. Mas, penso que cabe a cada um de nós que tem o coração de CEB’s fazer uma autocrítica: será que já despontou uma nova geração das CEB’s? Será que temos leigos e leigas formados na espiritualidade das CEB’s? Qual a faixa etária daqueles que compõe as CEB’s? As CEB’s são pobres e estão com os pobres?

Questionamentos que precisamos fazer para vislumbrar saídas criativas, para que as CEB’s não percam nem espaço e nem relevância na evangelização dos homens e mulheres de nosso tempo. O teólogo Manoel Godoy afirma: “Dizíamos que as CEB’s eram um novo jeito de ser Igreja, hoje é preciso dizer que as CEB’s devem encontrar um novo jeito de ser CEB’s”. Rumo a uma “Igreja em Saída”, comunhão, participação e missão como nos pede o Sínodo da Sinodalidade é preciso ouvir os sinais dos tempos.

As CEB’s bem como as paróquias precisam superar um modelo evangelizador rural e abraçar de uma vez por todas a cultura da cidade, que hoje está presente até mesmo na mentalidade de quem mora no interior. As CEB’s precisam ser lugar da juventude, aonde ela seja acolhida, ouvida, valorizada, e assim evangelizada; os jovens tem muito a ensinar à Igreja. Os jovens têm preocupações espirituais, humanas, sociais e ecológicas que podem nos ensinar muito. É preciso voltar ao essencial das CEB’s,  e ao mesmo tempo deixar no passado como parte de nossa caminhada histórica tudo aquilo que é supérfluo ou ultrapassado. Para os novos desafios, novas respostas.

Que nossas CEB’s sejam lugares construídos na força da Palavra de Deus, sejam pequenas comunidades pobres que acolhem os pobres, e que através da diversidade ministerial o protagonismo dos leigos e leigas seja reavivado como remédio ao clericalismo.  Depois de 48 anos, o 16º Intereclesial das CEB’s acontecerá em 2027 novamente no nosso querido Estado do Espírito Santo. Que seja motivo de reascender em todos nós a esperança numa Igreja de comunidades eclesiais de base, aonde se evangeliza de modo integral.


Campanha da Fraternidade 2026: Tanta gente sem casa e tanta casa sem gente

  O tema da Campanha da Fraternidade 2026 é Fraternidade e Moradia, e lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1, 14). Trata-se antes de tudo do ...