Com o Concílio Vaticano
II, de modo privilegiado através da Constituição Dogmática Dei Verbum, a Igreja reafirmou a Palavra de Deus como sacramento. “A Igreja venerou sempre as divinas
Escrituras como venera o próprio Corpo do Senhor, não deixando jamais,
sobretudo na sagrada Liturgia, de tomar e distribuir aos fiéis o pão da vida,
quer da mesa da palavra de Deus quer da do Corpo de Cristo” (DV, n. 21). Da
mesma maneira como cuidamos para que não se perca nenhum fragmento da
Eucaristia, deveríamos cuidar para não perder a Palavra que nos é proclamada na
liturgia. A mesma Dei Verbum
esclareceu que para o cristão católico quando se fala em Palavra de Deus,
estamos nos referindo a Sagrada Escritura (Bíblia) e a Sagrada Tradição (DV, n.
24).
Por muitos séculos a Bíblia era tida como um livro restrito a alguns
especialistas, aos quais cabiam a função de instruir a toda a comunidade. O
Concílio Vaticano II com seu desejo de voltar às fontes, colaborou para que
surgissem iniciativas que promovessem a difusão da Bíblia a todo o povo de
Deus. Neste sentido surge a metodologia da leitura popular da Palavra de Deus,
uma forma de aproximar os fiéis da Sagrada Escritura, como um livro que é vivo
e quer ser lido por todos e todas.
A Bíblia “Deixou de ser
livro hermético (fechado), conhecido unicamente pelo clero, para ir às mãos do
povo. Criaram-se círculos bíblicos que seguiram a genial metodologia de C.
Mesters” (LIBÂNIO, p. 25). Nos pequenos grupos de círculos bíblicos, que se
encontram nas casas, escolas, hospitais, presídios, associações, na sombra das
árvores de nosso Brasil, etc, todos têm direito de fala, todos podem se manifestar
a partir das provocações da Palavra de Deus. Na experiência da força da Palavra
partilhada e vivida através dos círculos bíblicos tantas ações evangélicas se
concretizaram, transformando às vezes bairros inteiros.
A aproximação mística e
vivencial da Palavra de Deus que nos proporciona os pequenos círculos bíblicos
converte nossos corações, nos ajuda a discernir a vontade de Deus e a atualizar
a Palavra no hoje de nossas vidas. O saudoso arcebispo Dom Luiz Mancilha Vilela,
um promotor dos círculos bíblicos, afirmava: “As 'Comunidades Eclesiais de Base
- CEB's' começam a aparecer, a partir do encontro dos dois Livros, o Livro da
Vida e o Livro da Sagrada Escritura” (VILELA, p. 19). A força transformadora e
criativa dos pequenos círculos bíblicos reside justamente na força divina da
Palavra de Deus.
Os pequenos círculos
bíblicos combatem o fundamentalismo bíblico de tirar o texto do seu contexto.
Os textos bíblicos a serem estudados e rezados são previamente preparados por
uma contextualização sobre o tipo de texto, autor, datação, contexto, etc. No
círculo bíblico a Palavra de Deus não é lida de modo mágico e homogêneo, mas
lida a partir da complexidade e riqueza literária que lhe é própria.
Estamos vivendo o mês da
Bíblia, uma celebração nacional de nossa Igreja Católica. O mês de setembro
como mês da Bíblia tem sua origem nas celebrações dos 50 anos de instalação da
Arquidiocese de Belo Horizonte, que em 1971, para marcar a festividade escolheu
realizar uma série de ações acerca do estudo e meditação bíblica. Setembro foi
escolhido por ser o mês em que liturgicamente celebramos a memória de São
Jerônimo, grande amante e tradutor da Sagrada Escritura. A experiência foi tão
frutífera que o Serviço de Animação Bíblica (SAB), das irmãs Paulinas, ajudou a
organizar e levar adiante o projeto do mês da Bíblia. “Com a devoção propagada
e os grupos de estudo bíblico se multiplicando, a CNBB passou a assumir a data
comemorativa e instituiu oficialmente a celebração por todo o país”[1].
Celebrando este mês
especial dedicado a Palavra de Deus somos convidados a repensar nossas práticas
e opções pastorais, e a recolocar a Palavra de Deus como centro e alma de todo nosso
agir pastoral enquanto Igreja. O contato com a Palavra de Deus nos ensina a pensar, é
caminho de maturidade da fé, é remédio que nos cura de todo tipo de espiritualidade
vazia e alienante. A opção pelos pequenos grupos de círculos bíblicos é uma ação muito
eficaz para evangelização em nossos dias, com esquemas atualizados e flexíveis
os pequenos grupos de círculos bíblicos podem ser uma reposta eficaz para
evangelização nas cidades, nos condomínios e em grupos afins. Os pequenos
grupos de círculos bíblicos podem nos ajudar a responder ao apelo do Papa Francisco
de uma “Igreja em saída”, ao invés de esperar pelas famílias afastadas em
nossas comunidades, que tenhamos a ousadia cristã de ir com a Palavra de Deus
encontrar nossos irmãos e irmãs afastados lá aonde a vida deles acontece.
Para
refletir:
1.
O que eu entendo por Palavra de Deus?
2.
A Palavra de Deus me provoca a realizar gestos
concretos?
3.
Já participei de algum encontro dos pequenos
grupos de círculos bíblicos?
Referências
LIBANIO, João
Batista. Conferências Gerais do
Episcopado Latino-Americano: do Rio de Janeiro a Aparecida. Paulus: São
Paulo, 2007. (Coleção temas de atualidade)
LOURENÇO,
Costa (org.). Documentos do Concílio
Ecumênico Vaticano II (1962-1965). São Paulo: Paulus, 1997. (Documentos da
Igreja; 1)
VILELA, Luiz Mancilha. Sinal do Reino: no presente e no futuro. Vitória - ES: [s.n.], [s.d.].
[1] Por que setembro é o mês da
Bíblia? Disponível em: https://www.a12.com/jovensdemaria/artigos/crescendo-na-fe/por-que-setembro-e-o-mes-da-biblia.
Data de acesso: 25 mar. 2023.


