segunda-feira, setembro 25, 2023

TEXTO: Círculos Bíblicos: um método de evangelização eficaz

Com o Concílio Vaticano II, de modo privilegiado através da Constituição Dogmática Dei Verbum, a Igreja reafirmou a Palavra de Deus como sacramento. “A Igreja venerou sempre as divinas Escrituras como venera o próprio Corpo do Senhor, não deixando jamais, sobretudo na sagrada Liturgia, de tomar e distribuir aos fiéis o pão da vida, quer da mesa da palavra de Deus quer da do Corpo de Cristo” (DV, n. 21). Da mesma maneira como cuidamos para que não se perca nenhum fragmento da Eucaristia, deveríamos cuidar para não perder a Palavra que nos é proclamada na liturgia. A mesma Dei Verbum esclareceu que para o cristão católico quando se fala em Palavra de Deus, estamos nos referindo a Sagrada Escritura (Bíblia) e a Sagrada Tradição (DV, n. 24).

Por muitos séculos a Bíblia era tida como um livro restrito a alguns especialistas, aos quais cabiam a função de instruir a toda a comunidade. O Concílio Vaticano II com seu desejo de voltar às fontes, colaborou para que surgissem iniciativas que promovessem a difusão da Bíblia a todo o povo de Deus. Neste sentido surge a metodologia da leitura popular da Palavra de Deus, uma forma de aproximar os fiéis da Sagrada Escritura, como um livro que é vivo e quer ser lido por todos e todas.

A Bíblia “Deixou de ser livro hermético (fechado), conhecido unicamente pelo clero, para ir às mãos do povo. Criaram-se círculos bíblicos que seguiram a genial metodologia de C. Mesters” (LIBÂNIO, p. 25). Nos pequenos grupos de círculos bíblicos, que se encontram nas casas, escolas, hospitais, presídios, associações, na sombra das árvores de nosso Brasil, etc, todos têm direito de fala, todos podem se manifestar a partir das provocações da Palavra de Deus. Na experiência da força da Palavra partilhada e vivida através dos círculos bíblicos tantas ações evangélicas se concretizaram, transformando às vezes bairros inteiros.

A aproximação mística e vivencial da Palavra de Deus que nos proporciona os pequenos círculos bíblicos converte nossos corações, nos ajuda a discernir a vontade de Deus e a atualizar a Palavra no hoje de nossas vidas. O saudoso arcebispo Dom Luiz Mancilha Vilela, um promotor dos círculos bíblicos, afirmava: “As 'Comunidades Eclesiais de Base - CEB's' começam a aparecer, a partir do encontro dos dois Livros, o Livro da Vida e o Livro da Sagrada Escritura” (VILELA, p. 19). A força transformadora e criativa dos pequenos círculos bíblicos reside justamente na força divina da Palavra de Deus.

Os pequenos círculos bíblicos combatem o fundamentalismo bíblico de tirar o texto do seu contexto. Os textos bíblicos a serem estudados e rezados são previamente preparados por uma contextualização sobre o tipo de texto, autor, datação, contexto, etc. No círculo bíblico a Palavra de Deus não é lida de modo mágico e homogêneo, mas lida a partir da complexidade e riqueza literária que lhe é própria.

Estamos vivendo o mês da Bíblia, uma celebração nacional de nossa Igreja Católica. O mês de setembro como mês da Bíblia tem sua origem nas celebrações dos 50 anos de instalação da Arquidiocese de Belo Horizonte, que em 1971, para marcar a festividade escolheu realizar uma série de ações acerca do estudo e meditação bíblica. Setembro foi escolhido por ser o mês em que liturgicamente celebramos a memória de São Jerônimo, grande amante e tradutor da Sagrada Escritura. A experiência foi tão frutífera que o Serviço de Animação Bíblica (SAB), das irmãs Paulinas, ajudou a organizar e levar adiante o projeto do mês da Bíblia. “Com a devoção propagada e os grupos de estudo bíblico se multiplicando, a CNBB passou a assumir a data comemorativa e instituiu oficialmente a celebração por todo o país”[1].

Celebrando este mês especial dedicado a Palavra de Deus somos convidados a repensar nossas práticas e opções pastorais, e a recolocar a Palavra de Deus como centro e alma de todo nosso agir pastoral enquanto Igreja. O contato com a Palavra de Deus nos ensina a pensar, é caminho de maturidade da fé, é remédio que nos cura de todo tipo de espiritualidade vazia e alienante. A opção pelos pequenos grupos de círculos bíblicos é uma ação muito eficaz para evangelização em nossos dias, com esquemas atualizados e flexíveis os pequenos grupos de círculos bíblicos podem ser uma reposta eficaz para evangelização nas cidades, nos condomínios e em grupos afins. Os pequenos grupos de círculos bíblicos podem nos ajudar a responder ao apelo do Papa Francisco de uma “Igreja em saída”, ao invés de esperar pelas famílias afastadas em nossas comunidades, que tenhamos a ousadia cristã de ir com a Palavra de Deus encontrar nossos irmãos e irmãs afastados lá aonde a vida deles acontece.

 

Para refletir:

1.               O que eu entendo por Palavra de Deus?

2.               A Palavra de Deus me provoca a realizar gestos concretos?

3.               Já participei de algum encontro dos pequenos grupos de círculos bíblicos?

 

Referências

LIBANIO, João Batista. Conferências Gerais do Episcopado Latino-Americano: do Rio de Janeiro a Aparecida. Paulus: São Paulo, 2007. (Coleção temas de atualidade)

LOURENÇO, Costa (org.). Documentos do Concílio Ecumênico Vaticano II (1962-1965). São Paulo: Paulus, 1997. (Documentos da Igreja; 1)

 VILELA, Luiz Mancilha. Sinal do Reino: no presente e no futuro. Vitória - ES: [s.n.], [s.d.].

 


[1] Por que setembro é o mês da Bíblia? Disponível em: https://www.a12.com/jovensdemaria/artigos/crescendo-na-fe/por-que-setembro-e-o-mes-da-biblia. Data de acesso: 25 mar. 2023. 



 

terça-feira, setembro 12, 2023

CRÔNICA: Setembro amarelo: vencer a tentação

 

O grande e incompreendido Van Gogh pintou a famosa tela “O quarto de Arles” (1889). Uma pintura rica em cores vibrantes, cálida nos detalhes em madeira e na intimidade do lençol corado que parece chamar ao repouso. Há indícios de que o autor quis expressar seus sonhos e pesadelos. No quarto de Arles a janela está fechada... A porta está fechada... embora cheio de cor e aconchego parece que o autor da obra está sem horizontes, só enxerga aquilo que imediatamente o circunda, ainda que o faça com a percepção aguçada dos mínimos detalhes.

Um homem de extrema sensibilidade, uns dizem que era alcoólatra e outros que era esquizofrênico. Seu grande amigo, com quem se correspondia por centenas de cartas, era seu irmão Theo, que significa “Deus supremo”.  Van Gogh amigo de Theo se suicidou com um tiro no peito aonde estava guardado o coração de esplendorosas obras de arte. Suas últimas palavras revelam o dilema interno em que vivia: “A tristeza vai durar eternamente”. É como se ele visse na morte a libertação de tamanha angústia e tormento. Fico pensando sagaz leitor como que o mundo é extremamente cruel com as pessoas sensíveis.

Que possamos pintar a vida de cores alegres, que os detalhes não nos passem despercebidos. Que a janela verde de esperança do quarto de nossa intimidade esteja aberta para receber a luminosidade do horizonte, sempre nos chamando a seguir adiante. Que nosso amigo Theo, que jamais nos abandona, esteja perto de nós a ouvir nossas lamúrias, a aliviar nossas ansiedades, a nos convidar ao diálogo do amor que faz a vida valer a pena. Que nosso quarto de Arles seja lugar do aconchego e do descanso, mas que jamais seja lugar de anulação e isolamento. Que de posse da porta de nosso quarto possamos permitir que outros visitem e contemplem o aconchego do seu interior. Esta é minha prece para todos aqueles homens e mulheres de fina sensibilidade que provam as agruras da vida. Com a amizade de Theo temos a certeza de que o amor é que durará para sempre. 



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  O tema da Campanha da Fraternidade 2026 é Fraternidade e Moradia, e lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1, 14). Trata-se antes de tudo do ...