quinta-feira, agosto 17, 2023

CRÔNICA: Um homem da Igreja: Dom Geraldo Lyrio Rocha

 

Há algum tempo venho pensando em iniciar uma série de textos sobre meus familiares falecidos, para lhes fazer memória, para perpetuar por mais um tempo o legado de meus ancestrais. Curiosamente comecei a executar esta tarefa, não como havia planejado, escrevendo sobre meus antepassados, mas escrevendo sobre aqueles que se tornaram meus familiares na mesma profissão de fé cristã católica.

Já escrevi sobre meu amigo o padre Jacy Cogo e agora dedico estas palavras ao memorável Dom Geraldo. Um capixaba dos mais ilustres, homem culto, de formação refinada, um líder religioso de grande influência. Foi o primeiro bispo diocesano de Colatina, realizou verdadeiros prodígios na evangelização do nosso povo, se tornou ainda em vida um verdadeiro mito na liturgia, no fino trato com as pessoas, na formação do laicato adulto na fé, na fidelidade ao Concílio Vaticano II, etc.

Sempre o admirei nas palestras e formações para o clero capixaba, momentos em que ele demonstrava diplomacia e ao mesmo tempo autoridade episcopal. Era um homem que tinha consciência da sua vocação e vivia integralmente como um servo de Deus e um verdadeiro membro da Igreja.  Quando celebramos em 2022 os trinta e dois anos de instalação da Diocese de Colatina, fui designado a buscar Dom Geraldo, já bispo emérito de Mariana, que morava no centro de Vitória. No caminho me atrasei pelo trânsito complicado da capital de nosso Estado, quando cheguei ele já estava aguardando ansioso, com sua refinada educação não reclamou da demora e logo seguimos para nosso destino. No caminho a conversa foi extremamente agradável, nosso assunto foi justamente o pontificado do Papa Francisco e o Documento de Aparecida, temas que são objeto de minha pesquisa no mestrado.

Dom Geraldo era um autêntico filho da Igreja, a amava como verdadeira Mãe, nunca o vi fazer uma crítica contumaz a Instituição, com sua sobriedade e inteligência sempre procurava soluções para os desafios impostos a Igreja. Recentemente tive a oportunidade de participar do retiro do presbitério da Diocese de Colatina que foi assessorado por Dom Geraldo. Iniciamos nosso retiro exatamente no dia treze de março, dia do aniversário natalício de 81 anos do ilustre epíscopo. Transcrevo algumas frases de Dom Geraldo durante sua pregação do retiro, assim homenageio este homem da Igreja, que na peleja da missão encontrou a sua páscoa definitiva. Um incansável servidor que consumiu toda sua vida dedicando-se a sua amada: a Igreja. Cumpriu a missão de um Evangelista. 

“O sacerdote é pobre de alegrias meramente humanas: renuncia a tantas coisas! E, visto que é pobre – ele que tantas coisas doa a outros - , a sua alegria deve pedi-la ao Senhor e ao povo fiel de Deus”.

“É verdade que, no anúncio do Evangelho, há cruz; mas é uma cruz que salva. Pacificada com o Sangue de Jesus, é uma cruz com a força da vitória de Cristo que vence o mal e liberta-nos do maligno”.

“Uma vida cheia de Deus é uma vida feliz”.

“Irmãos, melhor do que ninguém, Jesus conhece os nossos esforços e resultados, bem como os fracassos e desvios”.

“O melhor lugar para a gente estar é lugar que Deus escolheu para nós”.

“Maria une-nos a Deus, porque nela Deus se uniu a nós e jamais nos deixou. Os olhos de Nossa Senhora sabem iluminar toda a escuridão”.

“O mundo esta todo conectado, mas desunido”.


Nascimento: 14/03/1942
Páscoa: 26/07/2023

quinta-feira, agosto 10, 2023

CRÔNICA: Bom cristão: o homem que derrubava muros


Uma homenagem a padre Jacy Cogo, padre salesiano de Dom Bosco, falecido em 30/07/2023, aos 82 anos de vida.

Com singelas palavras quero fazer memória de meu amigo padre Jacy Cogo, que foi morar junto de Deus. Um amigo que tive a oportunidade de conhecer durante o meu período formativo no seminário “Maria, Mãe da Igreja”. Quando o conheci ele já era idoso e acometido da doença de Parkinson, que afetava sua voz e movimentos.

Era um homem de formação intelectual refinada, um erudito. Certa vez quando o visitava ele começou a chorar porque estava perdendo da memória os textos dos escritores romanos clássicos que ele havia decorado em latim. Sinais do mal de Alzheimer que estava batendo a porta. Gostava de recitar o poema do escritor Catullo da Paixão, intitulado “A flor do maracujá”, com esse poema fazia uma encantadora catequese. Meu amigo possuía a sabedoria de vida, alcançada após uma vida de erros e acertos, de intensidade, de um coração inquieto e desejoso de mais.

Um esportista enquanto pode, certa vez quando morava em nosso seminário, já velho e de corpo travado pelas mazelas, madrugada adentro ele caiu da cama. Quando acordou disse ter sonhado que estava jogando bola e num lance foi arremessado ao chão. Salesiano por vocação dizia com naturalidade os fatos da vida de Dom Bosco e seus meninos. Um homem de uma religiosidade rara e lúcida, de uma fé que se compadecia da vida concreta dos homens e mulheres que encontrava pelo caminho.

Teria tantas histórias para contar deste meu amigo... nossos cafés, nossas conversas fraternas, as Missas em Coqueiral e no Santuário de Nossa Senhora da Saúde, a fuga para Ibiraçu que eu acobertei, a carta em italiano mal ditada pelo Jacy e mal escrita por mim...tanta vida compartilhada. Não me esquecerei que meu nome é proveniente do grego IRENE que no fundo significa paz, padre Jacy sempre me recordava a etmologia de meu nome.

Na Missa de corpo presente que ocorreu em Belo Horizonte, num funeral tão simples e despojado como era o próprio padre Jacy, Dom Décio Sossai Zandonade confrade da Congregação Salesiana disse: “Não existiam muros que padre Jacy não pudesse derrubar”. Uma expressão muito feliz para lembrar o livre e brincalhão padre Jacy. Já no final da vida, no último mês de maio de 2023, eu estive com ele aqui em Belo Horizonte, já não se lembrava de mim devido a doença. Pensei: ele pode até não saber quem eu sou, mas eu sei quem ele é.

Faço memória deste amigo, agradeço ao bom Deus pela amizade gratuita e desinteressada que tínhamos. Acho que posso dizer que convivi com um bom cristão. Padre Jacy você foi importado para dentro de minha existência, não será esquecido, e seu exemplo me ajudará a ser melhor. Assim a vida se desenrola nos trilhos irreversíveis do tempo. Espero que quando chegar o meu ocaso eu esteja maduro por ter experimentado a intensidade da vida. 


 

terça-feira, agosto 08, 2023

CRÔNICA: É triste prá cachorro

Os fatos que contemplei nos últimos dias me fizeram recordar o pensamento do filósofo e sociólogo alemão Theodor Adorno. O referido pensador diz que a “barbárie” leva os indivíduos que a portam a praticar violências de todo tipo, a regredirem ao estado de “primitivismo de violência injustificadas”[1]. O único remédio possível seria a educação para autonomia que conduzisse a uma sociedade emancipada.

Fiquei estarrecido ao ler a notícia de que um jovem de vinte e seis anos, tudo indica que devido ao atropelamento acidental de um cachorro (registre-se caro leitor: quem nem sequer morreu), foi parado à frente por um motociclista que lhe alvejou com uma dezena de tiros que acabaram com sua vida. Tudo isso se deu na região metropolitana de Belo Horizonte. Que tipo de gente é esta? Quem são estes que amam os animais e matam um ser humano?

Outro noticiário que me causou espanto foi sobre casos de racismos e homofobia que ocorreram durante a Jornada Mundial da Juventude em Lisboa. Jovens brasileiros de uma comunidade quilombola foram hostilizados e xingados de macacos por outros jovens que provavelmente participavam do mesmo evento. Como pode num evento cristão acontecer esse tipo de coisa? Que diferença o cristianismo faz na vida destes agressores?

É triste prá cachorro! Ver animais domésticos serem tratados como crianças de colo enquanto se agride e mata, com tiro a queima roupa, a vida humana. Ver jovens pretensamente cristãos serem tão intolerantes, racistas e homofóbicos. Chega de barbáries.



[1] Emancipação e barbárie: Perspectivas de uma concepção dialética de educação em Theodor Adorno. Disponível em: https://ufsj.edu.br/portal2-repositorio/File/existenciaearte/Edicoes/6_Edicao/Emancipacao_e_Barbarie_Perspectivas_de_uma_concepcao_dialetica_de_educacao_em_Theodor_Adorno.pdf. Acesso em: 08 de ago. 2023. 

 

Campanha da Fraternidade 2026: Tanta gente sem casa e tanta casa sem gente

  O tema da Campanha da Fraternidade 2026 é Fraternidade e Moradia, e lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1, 14). Trata-se antes de tudo do ...