O tema da Campanha da
Fraternidade 2026 é Fraternidade e Moradia, e lema “Ele veio morar entre nós”
(Jo 1, 14). Trata-se antes de tudo do nosso corpo como nossa primeira morada,
que precisa ocupar um local para conviver dignamente com os outros, este lugar
digno se torna um lar, onde se experimentam as relações fundantes do ser humano
(p. 77). Lutar para que todos tenham moradia digna faz parte da missão da
Igreja, pois é uma questão de fé, de família, de ecologia, de política e de
justiça. Com esta CF a Igreja conclama a toda sociedade a se sensibilizar de que
o problema da moradia não é apenas um problema individual, mas social.
A tradição bíblica nos
revela que Deus armou a sua tenda entre nós (Jo 1, 14). “Ele mora entre nós,
mas especialmente entre os mais privados de direitos e dignidade, entre os que
erigem seus lares sob os papelões e as cortinas surradas dos tempos de hoje”
(p. 60). Um Deus que não é imparcial e que se põe do lado dos pobres e
desvalidos desta terra. Desde o AT podemos acompanhar a sacralidade da terra e
o desejo de Deus de que os homens não acumulassem terras alheias, mas esta
tentação de acúmulo sempre esteve presente. Já no NT a casa ganha com a
tradição paulina um sentido comunitário, sendo chamada em alguns momentos de
Igreja Doméstica. O direito à moradia se relaciona a paternidade Divina, se
Deus é pais de todos é preciso pensar na destinação universal dos bens, que
nenhum filho ou filho seja excluído desta partilha.
No entanto, a realidade
em que vivemos é bem diferente do querer de Deus. No Brasil, o déficit habitacional
em 2022 era de mais de 6 milhões de domicílios, e o mais curioso, o número de
domicílios vazios passou de 11,4 milhões, segundo dados da Fundação João
Pinheiro (p. 39). Tanta gente sem casa e tanta casa sem gente (p.79). Daí vemos
as ocupações acontecerem, pessoas que são especialistas em fazer habitáveis
locais que não estão cumprindo seu papel social, pessoas que reivindicam um
direito constitucional para que possam ter a dignidade de um endereço. O texto
base de modo profético afirma: “Entender e apoiar as ocupações de áreas urbanas
e prédios abandonados ou subutilizados, organizadas pelos movimentos sociais,
como caminho e estratégia para pressionar o poder público, em vista da promoção
do direito à moradia digna, da reforma urbana e do combate à desigualdade
social” (p. 79-80).
Falar de moradia é algo
bem complexo pois envolve a promoção do direito à cidade: “ o direito à saúde e
à educação de qualidade, aos espaços culturais e de lazer, aos meios de
transporte eficientes, à necessária universalização do saneamento básico e da
justiça ambiental, à participação na condução da própria comunidade, cidade e
país” (p. 78). Envolve também o enfrentamento de interesses contrários ao bem
comum, como a “mão invisível” da especulação imobiliária, os despejos
compulsórios, a arquitetura hostil, a falta de políticas públicas para
habitação que superem os programas de governo, e outros tantos fatores. Envolve
no fundo, o mínimo de sensibilidade humana para compreender que a rua não é
casa de ninguém.
O tema da moradia já foi
abordado em outras CF diretamente ou como tema transversal, permanece ainda
como uma urgência nacional. No início do texto base, muitíssimo bem escrito, temos
um vergonhoso Nihil obstat, a que
ponto estamos chegando. Já as últimas palavras do texto base mereciam ser tema
de um verdadeiro retiro para todos nós na quaresma: “Interceda por nós a Virgem
Maria, e sua sagrada família, peregrina, refugiada, marginal e sem-teto” (p.
90).
Para
refletir:
1.
Detenha-se por um templo contemplando o
cartaz da CF 2026. Algo te toca?
2.
Você e sua família moram em casa própria?
Se SIM, como você se solidariza com as famílias que não tem um teto? Se NÃO,
como você sonha adquirir a casa própria de sua família?
3.
Reze com João 1, 14: “Ele veio morar entre
nós”.
Referências:
CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do
Brasil. Campanha da Fraternidade 2026:
Texto-base. Brasília: Edições CNBB, 2025.


