quarta-feira, janeiro 14, 2026

Campanha da Fraternidade 2026: Tanta gente sem casa e tanta casa sem gente

 

O tema da Campanha da Fraternidade 2026 é Fraternidade e Moradia, e lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1, 14). Trata-se antes de tudo do nosso corpo como nossa primeira morada, que precisa ocupar um local para conviver dignamente com os outros, este lugar digno se torna um lar, onde se experimentam as relações fundantes do ser humano (p. 77). Lutar para que todos tenham moradia digna faz parte da missão da Igreja, pois é uma questão de fé, de família, de ecologia, de política e de justiça. Com esta CF a Igreja conclama a toda sociedade a se sensibilizar de que o problema da moradia não é apenas um problema individual, mas social.

 

A tradição bíblica nos revela que Deus armou a sua tenda entre nós (Jo 1, 14). “Ele mora entre nós, mas especialmente entre os mais privados de direitos e dignidade, entre os que erigem seus lares sob os papelões e as cortinas surradas dos tempos de hoje” (p. 60). Um Deus que não é imparcial e que se põe do lado dos pobres e desvalidos desta terra. Desde o AT podemos acompanhar a sacralidade da terra e o desejo de Deus de que os homens não acumulassem terras alheias, mas esta tentação de acúmulo sempre esteve presente. Já no NT a casa ganha com a tradição paulina um sentido comunitário, sendo chamada em alguns momentos de Igreja Doméstica. O direito à moradia se relaciona a paternidade Divina, se Deus é pais de todos é preciso pensar na destinação universal dos bens, que nenhum filho ou filho seja excluído desta partilha.

 

No entanto, a realidade em que vivemos é bem diferente do querer de Deus. No Brasil, o déficit habitacional em 2022 era de mais de 6 milhões de domicílios, e o mais curioso, o número de domicílios vazios passou de 11,4 milhões, segundo dados da Fundação João Pinheiro (p. 39). Tanta gente sem casa e tanta casa sem gente (p.79). Daí vemos as ocupações acontecerem, pessoas que são especialistas em fazer habitáveis locais que não estão cumprindo seu papel social, pessoas que reivindicam um direito constitucional para que possam ter a dignidade de um endereço. O texto base de modo profético afirma: “Entender e apoiar as ocupações de áreas urbanas e prédios abandonados ou subutilizados, organizadas pelos movimentos sociais, como caminho e estratégia para pressionar o poder público, em vista da promoção do direito à moradia digna, da reforma urbana e do combate à desigualdade social” (p. 79-80).


Falar de moradia é algo bem complexo pois envolve a promoção do direito à cidade: “ o direito à saúde e à educação de qualidade, aos espaços culturais e de lazer, aos meios de transporte eficientes, à necessária universalização do saneamento básico e da justiça ambiental, à participação na condução da própria comunidade, cidade e país” (p. 78). Envolve também o enfrentamento de interesses contrários ao bem comum, como a “mão invisível” da especulação imobiliária, os despejos compulsórios, a arquitetura hostil, a falta de políticas públicas para habitação que superem os programas de governo, e outros tantos fatores. Envolve no fundo, o mínimo de sensibilidade humana para compreender que a rua não é casa de ninguém.

 

O tema da moradia já foi abordado em outras CF diretamente ou como tema transversal, permanece ainda como uma urgência nacional. No início do texto base, muitíssimo bem escrito, temos um vergonhoso Nihil obstat, a que ponto estamos chegando. Já as últimas palavras do texto base mereciam ser tema de um verdadeiro retiro para todos nós na quaresma: “Interceda por nós a Virgem Maria, e sua sagrada família, peregrina, refugiada, marginal e sem-teto” (p. 90).

 

Para refletir:

1.     Detenha-se por um templo contemplando o cartaz da CF 2026. Algo te toca?

2.     Você e sua família moram em casa própria? Se SIM, como você se solidariza com as famílias que não tem um teto? Se NÃO, como você sonha adquirir a casa própria de sua família?

3.     Reze com João 1, 14: “Ele veio morar entre nós”.

 

Referências:

CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Campanha da Fraternidade 2026: Texto-base. Brasília: Edições CNBB, 2025.

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