segunda-feira, dezembro 30, 2024

O método ver-julgar-agir: da Ação Católica à Teologia da Libertação. Obra de Agenor Brighenti.


 
RECENSÃO 

BRIGHENTI, Agenor. O método ver-julgar-agir: da Ação católica à Teologia da Libertação. Petrópolis, RJ: Vozes, 2022. 355 p., 23 X 16 cm.  ISBN 978-65-5713-679-8.

 

O autor (A.) da presente obra, Agenor Brighenti é presbítero da Diocese de Tubarão (SC), doutor em Teologia pela Universidade Católica de Louvaina (1993), Bélgica. Pastoralista e especialista em Teologia Latino-Americana e Teologia da Libertação. Ele apresenta as raízes do método ver-julgar-agir, de modo sistemático e fiel, a partir dos escritos do seu idealizador, o cardeal belga J. Cardijn (1882-1967), bem como demonstra a influência do método ver-julgar-agir desde a Ação Católica até a atualidade do pontificado do Papa Francisco.

 

A obra está estruturada em duas grandes unidades. Na primeira o A. se detém a desvendar, desde às raízes do pensamento do seu idealizador, o método ver-julgar-agir na Ação Católica. Na segunda temos uma investigação da influência do método ver-julgar-agir no Magistério da Igreja e especificamente um enfoque na teologia latino-americana. De modo introdutório, e mesmo como justificativa da presente obra, o A. afirma que vivemos na Igreja, com a eleição do Papa Francisco, “um novo cenário eclesial muito promissor” (p. 15). Depois de décadas de uma “involução eclesial” vemos claramente no pontificado do Papa Francisco o resgate do método ver-julgar-agir. O A. salienta que “Em momentos de travessia, como são os tempos de crise, ousar vislumbrar ‘o passo adiante’ implica a necessidade de dar ‘um passo atrás’” (p. 16).

 

A primeira unidade é composta de quatro capítulos. Já de saída o A. deixa claro o amor e a predileção de J. Cardijn pela juventude, “queria um movimento centrado sobre a educação dos jovens operários, independente das atividades capitaneadas por intelectuais ou pelos sindicatos de adultos, pouco sensíveis às necessidades e às aspirações dos jovens adolescentes” (p. 35).

 

No cap. 1, o ver-julgar-agir é configurado como o método próprio da Ação Católica, especificamente da Juventude Operária Católica (JOC). Para compreendermos como o método ver-julgar-agir teve origem é indispensável conhecer a personalidade e as etapas do pensamento de seu idealizador. Iniciando em 1912 com a chamada fase embrionária o pensamento de J. Cardijn pode ser dividido em nove fases de evolução. O A. teve acesso aos arquivos de Bruxelas e Louvaina onde se encontram bem preservados as centenas de escritos, comentários, palestras do inovador padre belga.

 

O A. mostra, no cap. 2, o momento do ver do método. Nesta etapa evidencia-se no pensamento de J. Cardijn o desejo de responder às seguintes questões: “ ‘por que’ conhecer a realidade? ‘Para que’ conhecê-la? Conhecê-la através ‘de quem’? E ‘como’ conhecê-la? ” (p. 56). O capítulo se estrutura com base nestas quatro perguntas que são analisadas de modo detalhado no pensamento do idealizador do método. Começando pelo ver a proposta da JOC é de uma nova pedagogia onde se “privilegia o processo em relação aos resultados” (p. 85). 

 

O cap. 3 contém uma abordagem do momento do julgar. A preocupação era ensinar os jovens a “iluminar”, julgar a realidade dos fatos constatados. No momento do julgar ganha grande importância o critério da verdade. “No pensando de J. Cardijn, ‘verdade’ não é uma doutrina, mas o plano de Deus, plasmado em diferentes lugares e mediações” (p. 101), este deve ser o critério iluminador do julgar. Sendo que na hierarquia das verdades é preciso considerar que a “dignidade humana é a verdade ‘fundamental, intangível, indestrutível e final’” (p. 104). Nesta parte da obra, o A. afirma que segundo J. Cardijn para formar juízo é preciso acesso a uma “doutrina segura” onde se insere com grande relevância a Doutrina Social da Igreja. 

 

No cap. 4 temos o momento do agir. A formação dos jovens operários tinha como prioridade o agir para formar, ou seja, “aprender a agir, agindo” (p. 128). O idealizador do método “entende por ação: ‘agir, organizar, mas sempre formar’” (p. 126). Para manifestar a independência da JOC em relação à desvios, sejam partidários políticos ou sindicalistas, insiste-se que suas ações devem ser “ações religiosas”. Na formação dos jovens operários, como “sujeitos de sua própria história” na transformação social, é importante notar que “a ação mais importante será sempre a ‘salvação pessoal’, a ‘revolução interior’, uma revolução ‘a partir de dentro’, o que equivale a formação” (p. 126-127).

 

Na sequência temos considerações finais sobre o ver-julgar-agir no pensamento e na obra de J. Cardijn. Nesta etapa os três momentos do método ver-julgar-agir, que até aqui foram apresentados de modo objetivo e individualizado, são postos em inter-relação. Sobre a evolução do pensamento do padre belga, que sempre insistiu na primazia da realidade da vida concreta e na formação pela ação, conclui-se que só em 1949, é que se abandona definitivamente o “primado da doutrina (tese)” (p.171) e o método se torna indutivo e dialético. Assim, termina a primeira unidade que por si só já comporia uma obra completa.

 

Na segunda unidade repete-se a composição em quatro capítulos. A proposta da unidade é apontar a influência do método ver-julgar-agir “no magistério da Igreja, na ação pastoral e na reflexão teológica” (p. 173). No cap. 5 temos uma reflexão sobre o caminho que o método percorreu desde a sua aprovação papal (Pio XI, em 1925) até os nossos dias, com a sua utilização na exortação apostólica Evangelii Gaudium do Papa Francisco. “O método, que havia sido assumido pela Ação Católica especializada no mundo inteiro desde a década de 1930, enfim três décadas depois, entraria no magistério da Igreja, através de João XXIII, concretamente, na Encíclica Mater et Magistra, publicada em 1961” (p. 179). Desde então, o método sempre esteve presente no Magistério, enfrentado resistências e se reinventando. O capítulo também aborda a influência do método no magistério da Igreja na América Latina.

 

No cap. 6 o A. reflete sobre a crise da Ação Católica quando esta decide romper com a Neocristandade: “os postulados da Ação Católica não desaparecerão, antes vão se diluir na nova atmosfera criada em torno ao Concílio Vaticano II, de reconciliação com o mundo moderno, de superação do eclesiocentrismo e da mentalidade de Cristandade” (p. 212).  Na pastoral, o método levou, na América Latina, a criação do planejamento participativo enquanto método indutivo, integrando “o espírito da renovação do Vaticano II e da tradição libertadora” (p. 212).

 

Sobre a Teologia da Libertação, abordando a influência do ver-julgar-agir no Magistério da Igreja na América Latina, cap. 7, podemos ler: “hoje se tem consciência que a epistemologia e o método da nova teologia, antes de serem assumidos pelo Concílio, tiveram sua origem no método ver-julgar-agir da JOC de J. Cardijn, alicerçado na racionalidade moderna, indutiva e histórica” (p. 237). O A. revela pontos que demonstram o desdobramento e ampliação do método da Ação Católica na Teologia da Libertação, um dos aspectos considerados é o critério hermenêutico de leitura da realidade que dos jovens operários se dilata a categoria dos pobres. “Para J. Cardijn, ‘um único jovem operário vale mais do que todo o ouro do mundo’” (p. 267).

 

No cap. 8 o método da Teologia da Libertação é apresentado como herdeiro do ver-julgar-agir. “A relação prática da Teologia da Libertação está em continuidade-descontinuidade com a Ação Católica. Em comum está a volta à ação. A descontinuidade, [...] está no fato da volta não ser somente dirigida para a práxis, mas de se dar também na práxis e se deixar criticar pela práxis” (p. 301-302). Na conclusão da obra o A. assevera a atualidade e pertinência do método ver-julgar-agir que “tornou-se um habitus tanto no procedimento dos agentes de pastoral como daqueles no campo da reflexão teológica” (p. 304). Nesta parte temos um elogio a J. Cardijn mencionado como “um apóstolo incansável da juventude”, que de modo decisivo colaborou com a “Igreja para sua passagem, ainda que tardia, da Cristandade à Modernidade, de uma racionalidade teológica dedutiva e a-histórica a uma racionalidade indutiva e contextual” (p. 306).

 

A obra está bem escrita e delimitada pelos títulos e subtítulos, que dão clareza e fluidez a leitura e a uma posterior consulta temática. Existe uma menção ao Papa Pio II, no entanto, penso se tratar de um engano e a referência real seria ao Papa Pio XII (p. 161). O A. ao apontar a influência do método ver-julgar-agir no Magistério da Igreja na América Latina menciona a Conferência de Puebla (1979) como a II Conferência (p. 193), não considera a I Conferência que ocorreu no Rio de Janeiro (1955).

 

A primeira unidade da obra assume um caráter documental histórico, fazendo um primoroso e literal resgate do pensamento de J. Cardijn, demonstrando isoladamente e depois relacionando cada momento do método ver-julgar-agir. A segunda unidade assume um caráter mais analítico e crítico, onde o autor se sente à vontade para expor sua reflexão sobre as influências herdadas do método próprio da Ação Católica sobre o Magistério da Igreja, a pastoral e a teologia. Nas duas unidades a presente obra explicita que o método ver-julgar-agir, que era próprio da Ação Católica, se tornou um método da Igreja, já que apesar do declínio da Ação Católica o método ver-julgar-agir continua vivo e presente na ação pastoral e na reflexão teológica atuais. O método é apresentado de modo sistemático nas palavras de seu idealizador, J. Cardijn, o que se caracteriza como diferencial e contribuição inédita da presente obra para reflexão teológica.

 

Na América Latina o jeito de ser Igreja está imbricado ao método ver-julgar-agir. Esta obra é indicada a todos aqueles que desejam romper com o conhecimento superficial do método ver-julgar-agir e conhecer sua influência em nosso agir pastoral. Neste tempo de preparação para o Sínodo, convocado pelo Papa Francisco, esta obra pode nos impulsionar a encontrar novas perspectivas para uma evangelização mais eficaz do homem e da mulher de nosso tempo.  

 

Irineu Claudino Sales[1]



[1] Presbítero da Diocese de Colatina (ES). Mestre em Teologia Sistemática pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE), membro do Grupo de Pesquisa Teologia e Pastoral. Bolsista da CAPES. E-mail: claudino.i.sales@gmail.com. Orcid: https://orcid.org/0000-0003-1077-9954.

quinta-feira, fevereiro 15, 2024

TEXTO: Campanha da Fraternidade 2024

 

Tema: Fraternidade e Amizade Social

Lema: “Vós sois todos irmãos e irmãs” (Mt 23, 8)

Iniciamos o tempo quaresmal e com ele somos convidados a fazer um grande retiro de cerca de quarenta dias. No retiro quaresmal somos impulsionados a um encontro consigo mesmo, com Deus e com os irmãos e irmãs. Somos auxiliados pelas práticas da esmola – nossa relação com os outros, da oração – nossa relação com Deus, do jejum – nossa relação conosco mesmos. Justamente em consonância com a proposta quaresmal de conversão a Igreja no Brasil sempre entendeu que a fé não pode estar desligada da vida. Já a Sacrossanctum Concilium afirma que “a penitência quaresmal não só interna e individual, mas também externa e social” (SC, n. 110). Nossa fé em Jesus Cristo Nosso Senhor deve nos impulsionar na transformação das realidades deste mundo que pouco revelam a proposta do Reino de Deus.

O último Censo 2022, divulgado no início de fevereiro, revelou que somos um País de muitas igrejas, mais do que hospitais e escolas somados. Constatamos que o Brasil é um país de muitas igrejas e de pouco testemunho cristão. Não pode ser compatível com a proposta de Jesus Cristo um país tão desigual, corrupto e excludente. Somos uma nação religiosa desde o tempo dos povos originários, e como tal a religião pode dar um grande contributo para o desenvolvimento humano do povo brasileiro. A religião não pode se omitir diante da sua responsabilidade social. 

A Campanha da Fraternidade completa neste ano de 2024 sessenta anos de história, nesta trajetória já se produziram muitos frutos bons não somente para os fiéis da Igreja Católica, mas para toda sociedade brasileira. Com o tema Fraternidade e Amizade Social a Campanha da Fraternidade 2024 tem como objetivo: Despertar para o valor e a beleza da fraternidade humana, promovendo e fortalecendo os vínculos da amizade social, para que, em Jesus Cristo, a paz seja realidade entre todas as pessoas e povos (CNBB, 2023, p. 7)

O que é a Amizade Social? O Papa Francisco nos responde por meio da Fratelli Tutti: “é o amor que ultrapassa as barreiras da geografia e do espaço, é uma fraternidade aberta” (FT, n. 1). “Amizade Social que não exclui ninguém e a fraternidade aberta a todos” (FT, n. 94). O texto base da Campanha da Fraternidade explica que “amizade não é um clube exclusivo, mas uma escola onde treinamos competências a serem universalmente aplicadas” (CNBB, 2023, n. 20).

Somos iluminados a cada Campanha da Fraternidade pela luz perene da Palavra de Deus, que é sempre Boa Notícia anunciada pela Igreja. Neste ano temos como versículo iluminador: “Vós sois todos irmãos e irmãs” (Mt 23, 8). Se vivenciarmos bem esta Campanha da Fraternidade 2024 poderemos colaborar na superação das polaridades políticas e ideológicas que ainda ferem os corações, dividem as famílias e amigos, matam o diálogo e a vida em nosso Brasil, dando passos em direção a almejada paz. É triste constatar que “poderíamos ser apenas diferentes, mas nós dividimos” (CNBB, 2023, n. 42), chegamos ao absurdo de desejar que os diferentes sejam exterminados (CNBB, 2023, n. 55), numa verdadeira “alterofobia” que é a aversão a tudo aquilo que é outro, tudo o que não sou eu mesmo (CNBB, 2023, n. 73).

Precisamos de uma verdadeira conversão, mudança de mentalidade, para vivermos uma “prática comprometida da solidariedade e de uma ativa compaixão” (CNBB, 2023, n. 37). É preciso partir do sonho de Deus para a humanidade que é a fraternidade, que tem como base o Reino de Deus que é para todos e todas. A proposta da Campanha da Fraternidade é que possamos sair de nós mesmos para ir ao encontro dos irmãos e irmãs (CNBB, 2023, n. 121), vencendo “o individualismo por uma vida de amor fraterno e de engajamento comunitário” (CNBB, 2023, n. 136). Participemos dos pequenos grupos de círculos bíblicos sobre a Campanha da Fraternidade 2024, abramos as portas de nossas casas e de nossos corações para receber esta proposta.  

Para refletir:

1.               O que Deus quer que eu faça em prol do meu irmão (ã)?

2.               Quais são as minhas intolerâncias? No que eu preciso me converter, mudar de mentalidade?

3.               De quem eu me afastei por questões de divergências ideológicas ou políticas? Como posso dialogar com esses irmãos e irmãs?

 

SIGLAS:

CNBB - Conferência Nacional dos Bispos do Brasil.

FT – Fratelli Tutti.

SC – Sacrossanctum Concilium.

 

REFERÊNCIAS:

BÍBLIA. A Bíblia Tradução Ecumênica. São Paulo: Loyola, 1996.

IBGE – INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA . Censo Brasileiro de 2022. Rio de Janeiro: IBGE, 2024.

CNBB - Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Campanha da Fraternidade 2024: Texto-Base. Brasília: Edições CNBB, 2023.

CONSTITUIÇÃO. Sacrossanctum Concilium. Documentos do Concílio Ecumênico Vaticano II. Paulus: São Paulo, 1997.

FRANCISCO, Papa. Carta Encíclica Fratelli Tutti: sobre a fraternidade e amizade social. Brasília: Edições CNBB, 2020.






Campanha da Fraternidade 2026: Tanta gente sem casa e tanta casa sem gente

  O tema da Campanha da Fraternidade 2026 é Fraternidade e Moradia, e lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1, 14). Trata-se antes de tudo do ...