quinta-feira, dezembro 05, 2013

CRÔNICA: Um sem nome




Como todos os dias, acordei apressado para mais um dia de aula, rotina normal que as vezes tem traços de anomalia. Neste dia por sinal algo me bateu bem lá no fundo da cachola de pensamentos,  me espantei com o cotidiano! Eis a dádiva das crianças que muito aprendem porque cada dia não deixam de se surpreender com as minúcias da vida. Me parece, que ainda existe dentro de mim, resquícios dessa criança desejosa do novo que se vislumbra a partir do velho diário de nossas vidas.

  Estando no Centro Histórico de Vitória, lugar lindo que esconde belezas e histórias do meu povo, ao subir as escadarias que dão para um largo próximo ao Palácio Anchieta e que por sinal, sai na frente do Palácio Domingos Martins que volta a gozar de sua fisionomia esbelta, no entanto aparente enquanto não se restaurar dignamente seu interior, este foi o cenário da  minha visagem.

Seria uma cena comum, senão fosse o concatenar de fatores que me levaram a olhar e ver aquela realidade. Um homem estava dormindo próximo a um monumento que aparenta ser um chafariz ou similar, coberto de papelão ali estava um homem, um cidadão de rua. Ao acordar sentou-se, pensou em algo, talvez nem tenha passado nada em sua cabeça e estava apenas despertando para um novo dia. E num gesto convicto, que pela firmeza de ação deve se repetir religiosamente todos os dias, àquele homem se benzeu com um sinal da cruz. Depois, levantou-se como um cristão e pôs-se a arrumar sua cama improvisada ao ar livre.

  Aquilo me chocou... O que tinha aquele homem para agradecer a Deus? Por que um ser humano chega a tais condições inumanas? Será que aquele homem é fruto de escolhas verdadeiramente conscientes e livres? Donde vêm? Qual o seu nome? Será que tem família aquele pobre diabo?

Na lógica da fé aquele homem é um cristão, que dorme nas calçadas, que se embriaga para aquecer o frio da noite e a frieza com que o tratam as pessoas de "bem" que ali transitam. Pela fé ali estava um irmão meu, alguém que reza, que apesar de tudo confia em Deus. Jamais passaria adiante se meu irmão de sangue fosse aquele traste, mas passei adiante porque preciso manter minha hipocrisia de cristão moderado, ou por conveniência.

  Caramba! Aprendemos que somos um outro Cristo no mundo, que devemos ser Cristo para ser mais humano. Fico pensando o que pode ser feito por estas pessoas? O que eu faço para ajudar este "irmão" a beira do caminho? Tudo isso me fez lembrar de uma música que cantamos como "bons católicos" na quaresma: "Seu nome é Jesus Cristo e está sem casa e dorme pelas beiras das calçadas e a gente, quando vê, apressa o passo e diz que ele dormiu embriagado. Entre nós está e não o conhecemos..." Naquele homem marginalizado está a figura do Cristo sofredor, porém este não atraí nem mesmo os que se proclamam cristãos. Quantos são os cristos abandonados pelo mundo afora? 

Eu olhei com paixão para aquele humano, para o homem, para o cristão, um ver que me fez refletir. Diferente do que prega o Evangelho não fui capaz de intervir naquela realidade, me faltou talvez um cabedal de facilitadores, mas sinceramente me faltou amor. Se o mundo não está melhor hoje, é porque não sabemos de fato amar uns aos outros, complicada tarefa que nos foi dada por Cristo. 

  Consternado, decidi de imediato dentro do que considero "possível", ser mais compreensível, mais caridoso, mais próximo daqueles que me são caros, embora sei que pouca recompensa terei nisso, recompensa maior terei quando souber ir ao encontro do sofredor marginalizado e abandonado por todos. Que situações como estas, onde a dignidade da pessoa é ferida sempre despertem em nós um espanto diante do desprezo que todos temos por estas realidades conflitantes, este é o meu desejo e o clamor de tantos invisíveis da sociedade.

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