quinta-feira, agosto 10, 2023

CRÔNICA: Bom cristão: o homem que derrubava muros


Uma homenagem a padre Jacy Cogo, padre salesiano de Dom Bosco, falecido em 30/07/2023, aos 82 anos de vida.

Com singelas palavras quero fazer memória de meu amigo padre Jacy Cogo, que foi morar junto de Deus. Um amigo que tive a oportunidade de conhecer durante o meu período formativo no seminário “Maria, Mãe da Igreja”. Quando o conheci ele já era idoso e acometido da doença de Parkinson, que afetava sua voz e movimentos.

Era um homem de formação intelectual refinada, um erudito. Certa vez quando o visitava ele começou a chorar porque estava perdendo da memória os textos dos escritores romanos clássicos que ele havia decorado em latim. Sinais do mal de Alzheimer que estava batendo a porta. Gostava de recitar o poema do escritor Catullo da Paixão, intitulado “A flor do maracujá”, com esse poema fazia uma encantadora catequese. Meu amigo possuía a sabedoria de vida, alcançada após uma vida de erros e acertos, de intensidade, de um coração inquieto e desejoso de mais.

Um esportista enquanto pode, certa vez quando morava em nosso seminário, já velho e de corpo travado pelas mazelas, madrugada adentro ele caiu da cama. Quando acordou disse ter sonhado que estava jogando bola e num lance foi arremessado ao chão. Salesiano por vocação dizia com naturalidade os fatos da vida de Dom Bosco e seus meninos. Um homem de uma religiosidade rara e lúcida, de uma fé que se compadecia da vida concreta dos homens e mulheres que encontrava pelo caminho.

Teria tantas histórias para contar deste meu amigo... nossos cafés, nossas conversas fraternas, as Missas em Coqueiral e no Santuário de Nossa Senhora da Saúde, a fuga para Ibiraçu que eu acobertei, a carta em italiano mal ditada pelo Jacy e mal escrita por mim...tanta vida compartilhada. Não me esquecerei que meu nome é proveniente do grego IRENE que no fundo significa paz, padre Jacy sempre me recordava a etmologia de meu nome.

Na Missa de corpo presente que ocorreu em Belo Horizonte, num funeral tão simples e despojado como era o próprio padre Jacy, Dom Décio Sossai Zandonade confrade da Congregação Salesiana disse: “Não existiam muros que padre Jacy não pudesse derrubar”. Uma expressão muito feliz para lembrar o livre e brincalhão padre Jacy. Já no final da vida, no último mês de maio de 2023, eu estive com ele aqui em Belo Horizonte, já não se lembrava de mim devido a doença. Pensei: ele pode até não saber quem eu sou, mas eu sei quem ele é.

Faço memória deste amigo, agradeço ao bom Deus pela amizade gratuita e desinteressada que tínhamos. Acho que posso dizer que convivi com um bom cristão. Padre Jacy você foi importado para dentro de minha existência, não será esquecido, e seu exemplo me ajudará a ser melhor. Assim a vida se desenrola nos trilhos irreversíveis do tempo. Espero que quando chegar o meu ocaso eu esteja maduro por ter experimentado a intensidade da vida. 


 

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