Uma homenagem a padre Jacy Cogo,
padre salesiano de Dom Bosco, falecido em 30/07/2023, aos 82 anos de vida.
Com singelas palavras quero fazer
memória de meu amigo padre Jacy Cogo, que foi morar junto de Deus. Um amigo que
tive a oportunidade de conhecer durante o meu período formativo no seminário “Maria,
Mãe da Igreja”. Quando o conheci ele já era idoso e acometido da doença de
Parkinson, que afetava sua voz e movimentos.
Era um homem de formação
intelectual refinada, um erudito. Certa vez quando o visitava ele começou a
chorar porque estava perdendo da memória os textos dos escritores romanos
clássicos que ele havia decorado em latim. Sinais do mal de Alzheimer que
estava batendo a porta. Gostava de recitar o poema do escritor Catullo da
Paixão, intitulado “A flor do maracujá”, com esse poema fazia uma encantadora
catequese. Meu amigo possuía a sabedoria de vida, alcançada após uma vida de
erros e acertos, de intensidade, de um coração inquieto e desejoso de mais.
Um esportista enquanto pode,
certa vez quando morava em nosso seminário, já velho e de corpo travado pelas
mazelas, madrugada adentro ele caiu da cama. Quando acordou disse ter sonhado
que estava jogando bola e num lance foi arremessado ao chão. Salesiano por
vocação dizia com naturalidade os fatos da vida de Dom Bosco e seus meninos. Um
homem de uma religiosidade rara e lúcida, de uma fé que se compadecia da vida
concreta dos homens e mulheres que encontrava pelo caminho.
Teria tantas histórias para
contar deste meu amigo... nossos cafés, nossas conversas fraternas, as Missas
em Coqueiral e no Santuário de Nossa Senhora da Saúde, a fuga para Ibiraçu que
eu acobertei, a carta em italiano mal ditada pelo Jacy e mal escrita por mim...tanta
vida compartilhada. Não me esquecerei que meu nome é proveniente do grego IRENE
que no fundo significa paz, padre Jacy sempre me recordava a etmologia de meu nome.
Na Missa de corpo presente que
ocorreu em Belo Horizonte, num funeral tão simples e despojado como era o
próprio padre Jacy, Dom Décio Sossai Zandonade confrade da Congregação
Salesiana disse: “Não existiam muros que padre Jacy não pudesse derrubar”. Uma
expressão muito feliz para lembrar o livre e brincalhão padre Jacy. Já no final
da vida, no último mês de maio de 2023, eu estive com ele aqui em Belo
Horizonte, já não se lembrava de mim devido a doença. Pensei: ele pode até não
saber quem eu sou, mas eu sei quem ele é.
Faço memória deste amigo,
agradeço ao bom Deus pela amizade gratuita e desinteressada que tínhamos. Acho
que posso dizer que convivi com um bom cristão. Padre Jacy você foi importado
para dentro de minha existência, não será esquecido, e seu exemplo me ajudará a
ser melhor. Assim a vida se desenrola nos trilhos irreversíveis do tempo.
Espero que quando chegar o meu ocaso eu esteja maduro por ter experimentado a
intensidade da vida.

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