domingo, agosto 18, 2013

TEXTO: MCC - Que juntos nos encontremos na mesma fé


Tema: Que juntos nos encontremos na mesma fé
Reflexão apresentada em retiro de preparação ao Cursilho Masculino da Diocese de Colatina-ES. 1º SETOR BR 101 SUL – ARACRUZ.

1. COMO SE VISSE O INVISÍVEL
A fé, na Bíblia, é um ato e uma atitude que abrange o homem todo, sua confiança profunda, sua fidelidade, seu consentimento intelectual e a sua adesão emocional, abrangendo também sua vida, comprometendo sua história inteira, com seus projetos, emergências e eventualidades.
Esta fé é que fez Abraão "andar na presença de Deus" (Gn 17, 1), expressão cheia de significado. Deus foi a inspiração da sua vida; foi também sua força e norma moral; foi, sobretudo, seu amigo.
Uma história de fidelidade

Deus deu a Abraão uma ordem que também era promessa: "Sai da tua terra ... para uma terra que te indicarei, e te farei pai de um povo numeroso" (Gn 12, 1-4). Abraão acreditou. O que significou este acreditar? Significou entregar um cheque em branco, confiar contra o senso comum e as leis da natureza, entregar-se cegamente e sem cálculos, romper uma situação estável, e, com setenta e cinco anos, pôr-se a caminho (Gn 12, 4) para um mundo incerto "sem saber onde ia"(Hb 11, 8).
Deus submete à prova a fé de Abraão, Ele prova aqueles que ama. Passam anos e não chega o filho da promessa. Deus mantém Abraão num perpétuo suspense, como nas novelas em capítulos, quando parece que a cena vai ter um desenlace ela termina. Deus em seis oportunidades distintas faz a promessa de um filho (Gn 13, 16; 15, 5; 17, 16; 18, 10; 21, 23; 22, 17). Mas, o tempo passa e o filho não chega. Abraão segue esperando entre angústias e esperanças, é a história do "esperando com fé, contra toda esperança" (Rm 4, 18).

Chega num momento em que sua fé está a ponto de desfalecer por completo. No meio de um profundo desalento, queixa-se a Deus, dizendo: "É verdade que me destes muitos bens, mas para quê? Vou morrer logo; não me destes filhos e todos os bens que me deste herdará um criado ..."(Gn 15, 2-4). Então, Deus responde reafirmando a promessa.
Mas, nesse momento, a fé de Abraão se debate numa profunda crise: "Caiu Abraão por terra e ria, murmurando em seu coração: 'Como terá um filho, um centenário? E Sara já tem noventa anos'" (Gn 17, 17). Em resposta, Deus tirou Abraão do interior da tenda para a formosa noite estrelada, e lhe disse: "Levanta os olhos para o céu, conta as estrelas se és capaz. Pois assim numerosa será a tua descendência " (Gn 15,5).

Isso também acontece conosco, quando nossa fé desfalece, precisamos de um "sinal", um refúgio para não sucumbir. Enfim, Abraão tinha cem anos de idade quando lhe nasceu seu filho Isaac (Gn 21, 5).

A prova de fogo
Abraão fortaleceu sua fé crendo contra toda sorte, tendo esperança. Um homem curtido na provação, alguém que soube viver verdadeiramente sua amizade com o Senhor. Deus, vendo Abraão tão sólido , submeteu-o a uma prova final de fogo, a uma dessas terríveis noites do espírito de que fala São João da Cruz. Vamos ver como ele supera esta prova.

"Depois disto, quis Deus provar Abraão, e chamando-o disse: Abraão! Este respondeu: eis-me aqui! Disse Deus: Toma teu filho, o único, a quem tanto amas, sobe a Moriá e lá sacrifica-o sobre uma das montanhas que te indicarei". (Gn 22, 1-3)

Temos aqui um dos maiores episódios da fé bíblica. Para compreender, em sua exata dimensão, o conteúdo e grau da fé de Abraão, neste episódio, temos de pensar que executar um ato heróico pode ser atraente, quando esse ato tem sentido e lógica, tal como dar a vida por uma causa nobre e bela. Mas submeter-se a uma ordem heróica, quando a ordem é absurda, ou se está louco ou a motivação dessa submissão ultrapassa nossos conceitos e regras de heroísmo.

Situemo-nos no contexto vital de  Abraão e ponhamo-nos a explorar o submundo de impulsos e motivos deste grande crente. Sempre suspirava Abraão por ter um filho. Sentia-se velho e perdera a esperança de obter descendência. Entretanto, um dia Deus lhe promete o filho. Como para Deus nada é impossível, Abraão acreditou. Passados muitos anos de esperanças e desesperos, chegou o filho, que será o depositário das promessas e das esperanças. Abraão pode morrer em paz. Mas, na última hora, Deus pede que sacrifique o menino.

Uma exigência tão bárbara e louca era aniquilar toda a fé de uma vida. O mais elementar senso comum lhe asseguraria ter sido vítima de alucinação. Contudo, Abraão mais uma vez acreditou. Este crer custou um abandono-confiança em grau ilimitado. Apesar de todos os questionamentos que lhe devem ter assolado, Abraão sabe com certeza infalível que Deus é poderoso, bom, justo, sábio, e continua-lhe fiel. 

Vejamos agora como procede Abraão, cheio de infinita paz, de grandeza e de ternura: Ler Gn 22, 3-12.

Nesta narração, a fé e o abandono adquirem particular importância. Deus providenciará é o fundo musical que dá sentido a tudo. É muito significativo que esta narração termine com este versículo: "Abraão chamou a este lugar 'O Senhor providenciará', pelo que até hoje se diz: 'No monte do Senhor se providenciará'" (Gn 22, 14). Este homem de fé sempre soube que sua maior riqueza era estar na presença de Deus, que tudo lhe havia concedido e concederia. Abraão se entrega incondicionalmente aos braços de Deus, se lança na escuridão do silêncio de Deus, ele tem fé.

Fé não é uma questão de sentir, mas de saber. As sensações que provém dos sentidos podem nos trair, só a verdadeira sabedoria é livre de enganos. O próprio Cristo no alto da cruz pode experimentar o silêncio de Deus, abatido  pelas dores fisiológicas e psicológicas, Jesus se faz obediente até o fim quando se entrega, se abandona nos braços do Pai. Sem falar, disse: Pai querido, não te sinto, não te vejo. Minhas sensações interiores me dizem que estás longe, que te transformaste em fumaça, em sombra fugitiva, vazio cósmico, não sei, em nada. Entretanto, contra todas essas impressões, eu sei que estás aqui, agora, comigo, e  'em Tuas mãos eu entrego o meu espírito'. (Lc 23, 46) Em plena escuridão, Jesus deu um salto mortal em um abismo profundíssimo, sabendo que o Pai o esperava lá embaixo com os braços abertos.

Nos precisamos apreender com a Abraão, como o próprio Cristo, a se entregar à providência. Lembremos a mantra:

Nada te turbe, nada te espante
só Deus basta!

E Deus se reveste de silêncio. Você passou a noite inteira em vigília diante do Santíssimo Sacramento. Além de ter falado sozinho durante a noite, com o seu interlocutor sempre calado, quando sair da capela pela manhã, cansado e sonolento, não vai escutar uma palavra amável de gratidão ou cortesia. O outro ficou calado a noite inteira, e também se cala na despedida.

Se você vai ao jardim, verá que as flores falam, os pássaros falam, falam as estrelas. Só Deus se cala. Dizem que as criaturas falam de Deus, mas o próprio Deus fica calado. Todo o universo é uma imensa e profunda evocação do Mistério, mas o Mistério se desvanece no silêncio.

Como Abraão e outros homens de Deus, os confirmados na fé começaram queimando os navios, isto é, deixaram de lado as seguranças da retaguarda como também as regras do senso comum e os cálculos de probabilidade, e continuaram dando pouca importância às explicações que não explicam e às evidências que não satisfazem. No estilo dos pobres de Deus, abandonaram-se sem pontos de apoio, em plena escuridão, confiando incondicionalmente em Deus seu Pai. 

Se Deus se envolve em um manto de silêncio ou se oculta por trás das nuvens, continuarei a olhar "com um abandono audaz", mesmo que não veja nem sinta coisa alguma. Mesmo que me assaltem milhares de vozes falando de ilusão, eu sei que, por trás do silêncio, está Ele; continuarei a olhá-lo obstinadamente e em paz. E mesmo que Deus fique "adormecido" em minha barca durante toda a minha vida, não importa. Eu sei que ele "acordará" no grande dia da eternidade.

Busquemos à Deus com todas as nossas forças, que São Paulo interceda por nós para sermos verdadeiros discípulos missionários. "Não tenham medo de ser generosos com o Senhor"(Papa Francisco).

REFERÊNCIAS
LARRAÑAGA, Inácio. Mostra-me o teu rosto: para a intimidade com Deus. São Paulo: Edições Paulinas, 1989. 12 ed.

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