domingo, novembro 27, 2022

CRÔNICA: O chá: a avó, a bruxa, a comunidade


Passando um dia desses pelas ruas da cidade encontrei um pezinho de boldo chinês brotando numa rachadura de uma calçada, numa rua de asfalto, se exibia vitorioso demonstrando sua vitalidade em meio àquele ambiente aparentemente inóspito a sua presença. Aquela erva me despertou várias memórias afetivas. A primeira memória foi de minha avó que usava o chá de boldo para aliviar seus constantes problemas de estômago, dizia ela convencida ao tomar o chá de sabor extremamente amargo: “Boldo é o melhor remédio para o estômago”.

Me recordei ainda de quando fui visitar uma amiga, mulher muito feminina e sensível, já amadurecida pelos anos, no entanto cheia da beleza daqueles que assumem sua idade nas marcas do rosto, na cor do cabelo, na profundidade do olhar. Na casa de minha amiga tantos detalhes, tantas cores nas paredes e nos quadros, quantos bibelôs e porta-retratos cheios de memória, filtro dos sonhos, imagens de santos e da Virgem Maria, dois gatos rechonchudos, e por todo lado muitas plantas e ervas medicinais, numa composição mística e reveladora da personalidade de sua moradora. Curioso eu comecei a perguntar sobre as diversas ervas que haviam ali, e ela como mulher ligada à terra afirmou que as ervas estão em todo lugar, discretas e generosas para nos oferecer seus sabores e curas, basta educar nosso olhar e as descobriremos entre nós. As ervas que no passado curavam e ofereciam alívio a tantas doenças, mesmo suplantadas pela poderosa indústria farmacêutica que vicia e explora, insistem em brotar entre as gretas de nossas cidades que se tornaram selvas de pedra aonde nem a água da chuva consegue penetrar nas profundezas da terra. Aquela amiga “bruxa”, “curandeira”, “farmacêutica” me falou sobre o poder dos chás no cuidado com nosso corpo.

Outra memória que aquele pezinho de boldo me trouxe foi da vivência de fé de várias comunidades católicas da grande Belo Horizonte, é costume em algumas igrejas após a Missa que é o Remédio dos Remédios oferecer um chazinho quente para todos os fiéis, seja de cidreira, alfavaca, hortelão, etc; e ali o povo fica convivendo prolongando a Eucaristia com mais um momento sacramental que brota da espontaneidade e sabedoria da vida do povo de Deus. O chazinho depois da Missa é servido a todos, ninguém fica de fora, mesmo aqueles que não podem se aproximar da Eucaristia, que é o ápice de nossa fé. Revelando que os chás também podem gerar comunhão e curar corações.

Minha velha avó tinha razão em dizer que chá de boldo é bom para o estômago, mas talvez ela nunca tenha refletido que é bom também para despertar memórias. Minha velha avó, minha amiga bruxa, e a comunidade de fé descobriram o valor e o poder das ervas que estão muito além dos seus efeitos bioquímicos.   



Um comentário:

  1. Quantas vezes já tomei chá de boldo preparado pela minha mãe.

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