Para mexer com a nossa consciência
iniciemos, amigo leitor (a), com alguns questionamentos: Quantos presidentes
negros já tivemos? Quantos ministros negros temos no STF? Quantos governadores,
senadores, deputados, prefeitos, etc, negros? Quantos pensadores negros temos
no nosso País? Quem foram ou são os nossos professores negros? Quantos bispos,
padres, diáconos negros temos em nossa Igreja? Aonde estão os negros e negras
em nossa sociedade? Se sinceramente nos questionarmos, nestas e em outras
áreas, perceberemos que num país de maioria de afrodescendentes não visualizar
a população negra em alguns espaços sociais é um sintoma grave de doenças
crônicas na constituição de nosso Brasil.
É inadmissível ver o aumento surreal dos
índices de todo tipo de violência e agressões com motivações racistas, são negros agredidos em escolas, em
condomínios, no trabalho, são negros sendo mortos brutalmente, sendo
menosprezados e tratados como potenciais criminosos simplesmente pela cor da
pele. Continua tendo razão a profetiza negra de saudosa memória Elza Soares,
que cantou: “A carne mais barata do mercado é a carne negra. (Só-só cego não
vê) Que vai de graça pro presídio. E para debaixo do plástico. E vai de graça
pro subemprego. E pros hospitais psiquiátricos. ”
Nestes episódios deploráveis de racismo no
Brasil, e mundo afora, os violentos costumam nos chamar de macacos, e por
detrás desta expressão está toda uma carga teórica que desconsidera o outro
como gente, o coloca no patamar de animal, desumaniza e tira-lhe sua
singularidade e até mesmo sua alma. Como afirma a pensadora negra Cleusa
Caldeira, a quem tive a honra de conhecer e me sentir provocado por seus
questionamentos, o racismo é: “ [...] discriminação fenotípica e racial de
indivíduos, mas é, sobretudo, uma forma de hierarquização entre inferiores e superiores
em vista da dominação”. Como é triste constatar que em tantos espaços, em
tantas consciências, mesmo na consciência dos negros, está introjetada a
ideologia desumanizante de inferiorização do negro e de tudo aquilo que lhe diz
respeito.
Poderíamos dizer que somos todos filhos de
Deus e que esta história de raças não passa de uma invenção humana, que no
fundo ela não existe. Com isto, daríamos testemunho de um deus medíocre e
desconectado da realidade e ao mesmo tempo cruel, que pouco se importa com os
sofrimentos reais dos mais fracos e explorados. Mas, nosso Deus que se revela
no rosto evangélico de Jesus Cristo e na força do Espírito Santo, nos ensina um
caminho de reconciliação fraterna que passa pela prática da justiça. Se no
passado existiram políticas públicas no Brasil que legitimaram a desumanização
do povo negro, agora é urgente que tenhamos políticas públicas que venham fazer
justiça e que efetivamente promovam o desmonte do racismo estrutural e do mito
da democracia racial.
Por fim, amigo leitor (a), é preciso
independentemente da cor da nossa pele tornar-se negro, expressão que dá nome
ao livro da escritora, psiquiatra, negra Neuza Santos Souza. Tornar-se negro
para reconhecer as belezas, os valores, a religiosidade, as potencialidades, a
cosmovisão da negritude. Como negro quero diariamente tornar-me mais negro na
esperança de colaborar para que também nosso Brasil possa tornar-se negro.


Nenhum comentário:
Postar um comentário