Já estamos vivenciando a quaresma e neste tempo a palavra que se destaca é conversão, mudança de mentalidade, momento oportuno para passarmos a ter em nós a mesma mentalidade e sentimentos do nosso amigo Jesus Cristo, o rosto humano de nosso Pai do Céu. A conversão tem em si a dimensão individual, assim como a resposta da fé que é sempre pessoal, mas não individualista. A conversão tem em si a dimensão comunitária e social, ela diz respeito a realidade do homem todo, quem se converte tem toda a sua vida transformada.
Pisando o chão da
realidade do nosso Brasil a CNBB a cada ano conclama aos cristãos católicos e a
todas as pessoas de boa vontade à reflexão de um tema de cunho social,
justamente para deixar evidente a ligação entre fé e vida, entre conversão e
construção do Reino de Deus. Pela terceira vez a Campanha da Fraternidade
aborda a temática crucial da fome, só em nosso imenso País são 33 milhões de
pessoas padecendo com a fome, e mais de 120 milhões de pessoas enfrentando a
insegurança alimentar. O lema da Campanha da Fraternidade, colhido do evangelho
de São Mateus (Mt 14, 16) “Dai-lhes vós mesmos de comer!” é um convite a
tomarmos parte na transformação do mundo, nos revela que Deus irá resolver os
dilemas da humanidade valendo-se da própria humanidade.
As práticas da quaresma
revelam os diferentes tipos de fome que trazemos em nós: a oração expressa a
nossa fome de Deus, não um Deus qualquer, mas a fome do Deus justiça e amor; o
jejum revela nossa fome no sentido mais biológico de viver, nos revela a
urgência que devemos ter para socorrer os famintos ainda que para isso tenhamos
que abrir mão do nosso próprio alimento; a esmola revela nossa fome por
justiça, para que todos tenham direito ao necessário para vida digna, aonde
exista a verdadeira fraternidade.
Com o tema Fraternidade e
Fome somos convidados a refletir sobre as verdadeiras causas da fome em nosso
Brasil, e a buscar soluções para este drama que atinge sobretudo “o norte,
nordeste, mulheres, crianças e pessoas pretas, a fome tem endereço, cor e raça”
como recorda Frei Jacir de Freitas Faria. Se o pecado é uma ofensa ao coração
de Deus a fome também o é, e isso deve causar indignação em nós, pois isso é
Evangelho vivo. Como nos acostumar com o clamor incessante e cada vez maior dos
famintos? Como achar normal supermercados abarrotados de comida e nosso povo
morrendo de fome? Como normalizar a cena desumana de uma pessoa se alimentando
do lixo?
Deus não se alegra com a dor da barriga vazia, pois Ele sempre deseja o nosso bem estar e saúde. Que possamos recordar o profeta Isaías que nos demonstra com clareza qual é o jejum que agrada a Deus: “O jejum que eu prefiro, acaso não é este: desatar os laços provenientes da maldade [...] Não é partilhar o teu pão com o faminto?” (cf. Is 58, 6-8).

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