terça-feira, fevereiro 28, 2023

CRÔNICA: Fome e nosso prato vazio

A fome é muito mais que uma necessidade biológica, sentimos fome não só de alimentos para garantir nossa energia vital. Olhando um sacrário feito artesanalmente fiquei encantado com a nobre simplicidade da peça. Algo chamou minha atenção, na porta do sacrário contemplei um prato de vidro temperado, tipo aqueles “Duralex” que normalmente temos em nossas casas. Para nós católicos o sacrário é o lugar especial onde preservamos o Sagrado Pão Eucarístico, que para nós é o Corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo. Aquele prato na porta do sacrário como a nos lembrar que nem só de pão vive o homem (Mt 4, 4), que a nossa vida não é só biológica, na Eucaristia vislumbramos a vida eterna. O prato do sacrário é prato cheio do alimento divino, o Pão dos anjos, a nos lembrar que também os pratos de nossas mesas não podem estar vazios, lembrando-nos ainda que se sobra pão para nós é preciso aumentar o tamanho da nossa mesa e não a altura dos nossos muros.

O prato no sacrário nos fala da fome de Deus que deve habitar todo crente, mas fome de qual Deus? Um deus indiferente ao prato vazio dos miseráveis ou um Deus que quer pão em todas as mesas. Mas, o ser humano na sua complexidade sente outras fomes também, fomes que fazem doer não só o estômago, como também fazem doer a alma. 

Quantas pessoas com fome de sentido de vida. Tristemente recebi uma mensagem onde um amigo me pedia orações pelo seu pai que acabara de se suicidar... Eis a fome de sentido de vida, fome que mata assim como mata a fome da barriga vazia. Outra mensagem em meu aparelho celular, um amigo compartilhando o suicídio de um jovem que tinha o sonho de ser um religioso, com fome de sentido de vida aquele jovem se jogou para fora da vida pulando de uma ponte.  

Ah! Como cruel é a fome! A carência, a ausência, o vazio, as náuseas, a dor, a fraqueza, e por fim a sonolência da dormência da morte. Diante da intransigência da fome nos resta dois caminhos, saciá-la ou por ela sermos devorados. No meu coração brota a fome de justiça diante de tantos acontecimentos irrefreáveis e mortais. O caminho deve ser feito de olhos abertos para conhecer as fomes que vão dentro de nós e as fomes de quem está ao nosso lado. 

 

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