Um dia de reivindicação e não de celebração!
Em julho de 2022 foi criado o dia dos Povos Indígenas,
fazendo avançar a reflexão do dia do Índio criado em 1943. No último dia 19 de
abril de 2023 celebramos então o primeiro dia dos Povos Indígenas e tal mudança
que não é só um recurso linguístico, mas uma mudança de interpretação e de
valores. Logo, num primeiro momento nos perguntamos: Mas existe diferença entre
índio e povos indígenas?
No nível de reflexão que temos na atualidade podemos afirmar
que índio e povos indígenas são sim diferentes, embora etimologicamente as
palavras se identifiquem. A palavra índio traz em si uma carga muito negativa,
se olharmos no retrovisor da história lembraremos a chegada de Colombo às
Américas, batizando as pessoas que já habitavam aqui de índios, pois pensava
ter chegado a Índia. O sociólogo Gilberto Caldas nos ajuda a refletir sobre a
carga da palavra índio: foi utilizada para designar sujeitos imputáveis,
primitivos, selvagens, era sinônimo de incapaz.
Sabemos do poder das palavras e que elas exercem uma força
muito grande no nosso jeito de enxergar a realidade concreta da vida. Daí a
importância de usarmos de modo mais assertivo, com mais precisão conceitual, a
expressão Povos Indígenas. Primeiramente a expressão povos faz alusão a
protagonismo, a diversidade e abraça a multiplicidade. Já a expressão indígena
(aquele que é virado para dentro) se refere a pluralidade de identidades
culturais, de idiomas, de religião, de modos de vida. Daí ser mais apropriado a
expressão Povos Indígenas.
No entanto, toda vez que trazemos para o centro do debate
grupos, pessoas, ou temas que estão na marginalidade dos interesses, logo
ouvimos vozes inconformadas com as mudanças que se propõe. Esquecem que a
linguagem é vida e está o tempo todo se transformando e para além da dificuldade
de aceitar o novo, preferindo fazer a manutenção das velhas expressões que
legitimam os privilégios e exclusões de sempre, alimentam preconceitos
históricos.
Segundo o antropólogo brasileiro, Darcy Ribeiro, o indígena
quer ter direito ao seu pedacinho de terra para continuar sua cultura, seu
idioma, sua religião, com vida descente. Mas, as terras indígenas são muito
valiosas em todos os sentidos, por cima e por baixo, despertam a ganância de
muitos que guiados pelo capital invadem as terras indígenas promovendo
destruição e mortes. Por quantos genocídios já passaram os povos indígenas do
Brasil? Até quando nossos indígenas conseguiram resistir? Como nos afeta a
situação atual dos Yanomamis?
Mas, como bons brasileiros tenhamos esperança. Esta mudança
conceitual que aqui apresentamos de modo singelo, já é sinal de algo está em
transformação. Vemos também com bons olhos a escolha de Sônia Guajajara para
assumir a pasta do Ministério dos Povos Indígenas, pasta recém-criada, sendo a
primeira mulher indígena a ocupar um ministério. Esperamos que sejam abertos
caminhos para efetivação das demarcações de terras indígenas, bem como
políticas públicas de proteção e manejo sustentável destas áreas. Que os povos
indígenas tenham assegurados os seus direitos a terra, a cultura, a vida
descente e que possamos aprender com eles a cultura do bem viver.


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