Nas conversas no vai e
vêm da vida, neste mês em que vimos atos racistas ganharem as páginas dos
noticiários internacionais e nacionais, alguém ao ver minha indignação diante
de tais atos afirmou: “Você não é negro”. E o pior foi ouvir isso de uma pessoa
negra. Posso não ser um negro retinto, mas sou negro e a cada dia tenho buscado
me tornar negro.
A fala daquela pessoa
reverbera aquilo que Neuza Santos Souza, grande ícone dos primórdios da
militância negra no Brasil, dizia “enquanto a branquitude mantiver seus
privilégios, invisibilizando tudo que é não branco, também ela perde, não
alargando seus horizontes.” (SOUZA, 2021, p. 19) Eu me senti invisível, sei que
não sou branco, e agora alguém diz que não sou negro, só me resta o lugar do
não ser. Isto é a pressão que o racismo estrutural exerce sobre nós negros e
que impede o intercâmbio frutuoso entre brancos e negros. Nesta batalha todos
perdem, mas os negros perdem muito mais, e na maioria das vezes perdem o
direito de existir.
Como pode num País com
tantos negros demonizarmos tudo que lembra a África e seus habitantes? O
racismo na sua crueldade colonizou as consciências de tal maneira que
animalizou a pessoa negra, menosprezou sua cor de pele e seu cabelo, demonizou
sua religião, suprimiu sua cultura... Quanta violência, quanta desumanidade e
tudo isso influi diretamente no negro e na negra de hoje.
O racismo continua
presente entre nós, ele tem a capacidade de se refinar e de se reinventar com
uma astúcia diabólica, ele está dentro de todos nós. Na atualidade vivemos
grandes retrocessos no combate ao racismo. Parece que as pessoas perderam o
pudor e já não se envergonham de se declararem racistas ou de cometerem crimes
contra a dignidade da pessoa negra. Celebrar o dia da África é ter coragem de
olhar para as vítimas de ontem e de hoje, ousadia para discernir a situação dos
afrodescendentes do nosso Brasil.
Encerro caro leitor, cara
leitora, com as palavras de realismo e esperança da grande Neuza Santos Souza: “Saber-se
negra é viver a experiência de ter sido massacrada em sua identidade,
confundida em suas perspectivas, submetida a exigências, compelida a
expectativas alienadas. Mas é também, e sobretudo, a experiência de
comprometer-se a resgatar sua história e recriar-se em suas potencialidades”
(SOUZA, 2021, p. 46).
Referência
SOUZA, Neusa Santos. Tornar-se negro: as vicissitudes do negro brasileiro em ascensão social. Rio de Janeiro: Zahar, 2021.

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