segunda-feira, maio 29, 2023

CRÔNICA: Celebrar nossa africanidade


Os dias do mês de maio se debulham na vagarosidade dos agonizantes. Em um mês parece que vivemos coisa demais... No dia 25 de maio celebramos o dia Mundial da África, deste imenso continente que ainda precisa ser desbravado por nós brasileiros. Conhecer mais sobre o continente africano é conhecer melhor as raízes ancestrais de mais de cinquenta e cinco por cento da população nacional.

Nas conversas no vai e vêm da vida, neste mês em que vimos atos racistas ganharem as páginas dos noticiários internacionais e nacionais, alguém ao ver minha indignação diante de tais atos afirmou: “Você não é negro”. E o pior foi ouvir isso de uma pessoa negra. Posso não ser um negro retinto, mas sou negro e a cada dia tenho buscado me tornar negro.

A fala daquela pessoa reverbera aquilo que Neuza Santos Souza, grande ícone dos primórdios da militância negra no Brasil, dizia “enquanto a branquitude mantiver seus privilégios, invisibilizando tudo que é não branco, também ela perde, não alargando seus horizontes.” (SOUZA, 2021, p. 19) Eu me senti invisível, sei que não sou branco, e agora alguém diz que não sou negro, só me resta o lugar do não ser. Isto é a pressão que o racismo estrutural exerce sobre nós negros e que impede o intercâmbio frutuoso entre brancos e negros. Nesta batalha todos perdem, mas os negros perdem muito mais, e na maioria das vezes perdem o direito de existir.

Como pode num País com tantos negros demonizarmos tudo que lembra a África e seus habitantes? O racismo na sua crueldade colonizou as consciências de tal maneira que animalizou a pessoa negra, menosprezou sua cor de pele e seu cabelo, demonizou sua religião, suprimiu sua cultura... Quanta violência, quanta desumanidade e tudo isso influi diretamente no negro e na negra de hoje.

O racismo continua presente entre nós, ele tem a capacidade de se refinar e de se reinventar com uma astúcia diabólica, ele está dentro de todos nós. Na atualidade vivemos grandes retrocessos no combate ao racismo. Parece que as pessoas perderam o pudor e já não se envergonham de se declararem racistas ou de cometerem crimes contra a dignidade da pessoa negra. Celebrar o dia da África é ter coragem de olhar para as vítimas de ontem e de hoje, ousadia para discernir a situação dos afrodescendentes do nosso Brasil.

Encerro caro leitor, cara leitora, com as palavras de realismo e esperança da grande Neuza Santos Souza: “Saber-se negra é viver a experiência de ter sido massacrada em sua identidade, confundida em suas perspectivas, submetida a exigências, compelida a expectativas alienadas. Mas é também, e sobretudo, a experiência de comprometer-se a resgatar sua história e recriar-se em suas potencialidades” (SOUZA, 2021, p. 46).

Referência

SOUZA, Neusa Santos. Tornar-se negro: as vicissitudes do negro brasileiro em ascensão social. Rio de Janeiro: Zahar, 2021. 

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