Em certa conversa, com um
determinado amigo, escutei: “Eu sou um pessimista esperançoso”. E daí em diante
nossa conversa se desenrolou na tentativa de explicitar esta tese que de início
me pareceu contraditória. Mas, tal reflexão vindo de quem vinha ficou guardada
em minha memória.
Acabo de ler uma grande
obra, não pelo se tamanho, mas pela importância da reflexão. A obra tem como
título “Sociedade do cansaço”, do filósofo coerano Byung-Chul Han. O livro
discorre sobre a passagem da sociedade disciplinar, marcada pela obediência e a
coerção do não, para a sociedade do desempenho, marcada pelo sim e pelo excesso
de positividade. Nesta nova sociedade emergente desaparece a alteridade, “que significa
que vivemos numa época pobre de negatividades” (p. 14). O exagero da positividade
na sociedade do desempenho coloca como nosso rival, que precisa ser superado a
todo custo, o nosso próprio eu. Isso provoca uma séria de patologias como o burnout e a depressão, “o sujeito do
desempenho encontra-se em guerra consigo mesmo” (p. 27). Nesta luta de se auto superar,
concorrendo consigo mesmo, o sujeito mais cedo ou mais tarde sofre um colapso
psíquico, um esgotamento, em última instância o sujeito do desempenho se
realiza na morte, ao se autodestruir (p. 86). Daí uma explicação para o
crescente número de suicídios em nosso tempo.
A referida obra apresenta
as limitações da sociedade disciplinar e na passagem para a sociedade do
desempenho, aponta que na transição se mudou a narrativa e se alteraram os papéis.
No entanto, a dialética senhor e escravo continua vigente e com novas coerções,
mas agora numa roupagem de suposta “liberdade”, senhor e escravo coabitam o
mesmo sujeito. “Somos ao mesmo tempo prisioneiro e vigia, vítima e agressor. Assim,
acabamos explorando a nós mesmos” (p. 45). Nos falta o tempo do nada fazer, do
inútil, do não, para que tenhamos condições de ver, contemplar, meditar e daí
pensar ou não pensar novos caminhos.
A sociedade do desempenho
com seu excesso de positividade incute nas pessoas que “sim, nós podemos”, mas
na realidade ninguém pode tudo. Para a sociedade do desempenho sempre há o que
fazer, sempre há uma forma de se superar, até o ponto de sucumbirmos com nosso
próprio eu. Diante de algumas situações simplesmente não teremos o que fazer, e
isso pode parecer pessimismo, mas é justamente aí que está escondida a nossa
salvação. Ah! Que bom ter amigos que pensam.
Anchieta (ES), 12
de janeiro de 2026.
Padre Irineu
Claudino Sales

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